quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Aldeia da Luz


A brancura da casa da Vicência não se fica só por fora. É também por dentro. Cobre as paredes das divisões; estampa-se nos cortinados de renda que caem das janelas; no ferro das camas, das almofadas e colchas; em algumas louças de servir à mesa. Mesmo quando salpicadas por raras  flores coloridas ou cintadas por finas faixas de cor. É uma alegria branca, que limpa e refresca os olhos, sobretudo, quando me fixo na  tristeza deste chão de lousa, rosa escuro, tão envelhecido pelo andar dos pés e do tempo.

E tanto a imagem de brancura da casa me atrai, que mal ouço a Vicência aceitar alugar-me um dos quartos para vir a ocupá-lo no próximo mês de Agosto, ainda tão a milhas de distância...

Ao transpor a soleira gasta da porta, por pouco o bafo de calor não me sufoca.Toda a aldeia, despovoada, ferve!  Há de ser este o ar aproximado ao que se respira às portas do inferno para quem  nele acredita! E quanto  faltará para que este sol não comece a abrir sulcos na pele e a encegueirar os olhos? 

Mas por ora, o que importa, é chegar ao largo; depois, atravessar os campos, calcorrear  a estrada retilínea, que varia de extensão segundo a temperatura  do dia, até  alcançar, por fim,  a velha igreja.
O que me atrai, porém, é aquela gota de água,  que vai inchando na bica até cair a prumo. E  logo o movimento de vaivém que imprimo à manivela, e faz jorrar, grossa,  ás golfadas, a água com que ensopo  a cabeça escaldante, mato a sede e ganho ânimo para  trepar pelo cabeço até ao cume  onde se encontra o cemitério: uma reprodução em miniatura - eis o que me ocorre  - da própria aldeia que se avista ao longe...
Um lugar onde apenas a  luz faísca sobre a aridez marmórea das lages sepulcrais, caso  não queira dar mais conta de nada...




Mas eu quero! E é então que, pouco a pouco,  começo a  ouvir vozes, como se florissem  através dos poros da terra; sombrias vozes, anestesiadas por um prolongado sono, esfriando momentaneamente a luz... Subterradas vozes que, sem deslindar o que dizem, causam arrepios. Como se, de  súbito, fôssemos acometidos por um febrão! E eu voltasse a ter a doença que tive em menino! Não! O melhor é deixar de desatar os nós destas lembranças, apressar o passo, sair, ouvindo apenas o gemido do portão a soar  atrás de mim! 

Olho as esguias cruzes de pedra, que se encontram em torno do cemitério,vagueando, errantes, pelo declive, quais figuras humanas de braços abertos. Sim! A sede voltou e há que descer o pequeno cerro e dar, de novo, à manivela do poço.

É domingo. Um bando de pardais, entretanto,  larga o telhado da igreja e voa em direção ao Guadiana que corre lá em baixo... Também precisam de afogar a sede. E eu, de caminhar  um pouco mais. A  cada passo, sinto a aspereza da ardósia, enquanto mastigo o pó levantado à passagem acelerada de uma viatura... Em pouco tempo, porém,  eis o rio, tateando as sinuosidades calcinadas das margens e, um pouco mais adiante, o dique a reter as águas, onde um grupo de rapazes chapinham e gritam, infatigáveis. Bradam, esganiçados, ainda mais alto do que a telefonia soprando um música pimba, estrategicamente suspensa  na cantaria de uma antiga azenha, improvisada em bar.

E vai uma coca cola! E vai um ice tea! Mas é o espírito frio e acre das minis, com tremoços ou amendoins,  que têm mais saída.   Bebem-na os homens. E também eu, outra e outra, com os cotovelos apoiados no balcão, enquanto  a tarde avança...  E não ser possível imobilizar os ponteiros do cronómetro  do tempo por uma hora que fosse, quase me revolta!... Sobretudo, a partir deste instante, em que a telefonia se calou de vez, não tardando  a que, tanto os homens como as aves comecem a debandar...

Em redor, as árvores espreguiçam-se. E enquanto a sonolência vai tomando conta delas, o que tenho a fazer, é deitar pés a caminho. Quanto antes!
                                                                                                Aldeia da Luz, 2001



domingo, 6 de novembro de 2016

Visita Guiada (1)



Desço à cave das minhas ocupações purgatórias. Abro a porta, tateio a parede até ao clique do interruptor. A escuridão ilumina-se. É aqui que eu respiro como em nenhum eucaliptal. É a bem dizer o único espaço da terra onde eu fico plenamente comigo ou com a sensação disso.
Os ponteiros do relógio suspenso na parede defronte indicam três e trinta. Não sei se da madrugada, se da tarde, pois desde há largo tempo que se mantêm paralisados. Sobre o mostrador, revestido por uma ténue película de pó, repousam em paz. E ainda bem, porque quando me fixo neles, transmitem-me uma noção de paragem do tempo, que muito convém a uma pessoa sempre tão apressada como eu; que não deixa de sentir, de quando em quando, a necessidade de fazer um stop; de abstraidamente deixar o cigarro abandonado no cinzeiro, ardendo até à fronteira do filtro.
Quando olho para o relógio, chego mesmo a pensar que ele se substitui a um crachá que me pessoalizasse, ou a uma espécie de brasão sem qualquer aristocracia.
Nenhuma hipótese há de os seus ponteiros se reativarem ao som do sincopado tiquetaque, restituindo-lhe esse sopro de animação condensado numa pilha de três volts. A razão é simples: ninguém tem aceso à minha cave. Nem a empregada da limpeza. Só as traças que eu pulverizo cirurgicamente, de quando em quando, com o Dum Dum, acabando por bombardear, de igual modo, alguns aracnídeos da minha estimação.  
A cave é o meu feudo. Um domínio que ninguém pisa. Porque subterrânea, eu diria mesmo que ela prolonga as coisas que me são interiores, as menos visíveis. As que se ocultam debaixo da pele e das quais, em certa medida, eu dependo para respirar. Como um pulmão. A cave é, à luz disso, o meu segundo pulmão. 
Porém, e por qualquer razão que perde nitidez aos meus olhos, uma secreção mais intensa de qualquer glândula, um excesso de acidez, sei lá, eu disponho-me excecionalmente a franquear-te o acesso à minha cave. Não fisicamente, claro, mas com a tua participada imaginação.
Cuidado com o último degrau! Observa como faço penetrar a chave na fechadura apenas através do olhar do tato. Para esta operação,  como um cego dispenso a visão das retinas. De luz, já acesa, não terei logrado surpreender-te... Mas aguarde-se. Ao primeiro relance, a minha cave não se distinguirá de muitas outras tornando-se, apesar de tudo, evidente nunca a ter ocupado com nenhuma arte oficinal. Como o restauro de móveis que, no  andar que habito,  se vão desengonçando por ação das  brocas corrosivas do bicho da madeira  e  de alguns maltratos meus, por vezes, tão mecânicos e precipitados.



Aparentemente a minha cave não testemunha nenhuma ocupação com qualquer hobby. Erro teu!... Comece-se por dar atenção àqueles contentores de plástico, uns verdes, outros brancos, ali, ao fundo. Devidamente empilhados, não trepam até ao teto para não deformarem os que se perfilam rente ao soalho. Seria o caos! Libertando a tampa de um deles, atenta ao seu conteúdo. São pedras. Pedras e mais pedras. Aos milhares, variando de espessura,  cor, peso e forma, havendo, casos raros, uma ou outra que exceda o volume da minha mão fechada.
São pedras da terra que cheiram a um tempo antiquíssimo, levantadas por mim do chão, quase sempre basáltico, em tempo seco. 
São pedras opacas, densas, duras, ásperas ou polidas, de aspeto mais ou menos regular. Não são preciosas no sentido petrológico  do termo... mas são-no ao meu afeto, bem como ao meu próprio tato quando lhes pego. E mais ainda à minha capacidade de gozar com a leitura que faço das suas arestas, ondulações, serrilhas, gumes e outras asperezas... 
Eu posso tratá-las, de uma forma que sei, especializada ou, mais familiarmente, por tu. Prefiro a última, que traduz uma comunicação mais livre, com a vantagem ainda de, deste modo, lograr possivelmente atrair mais a tua atenção sobre elas.
As pedras não são seres vivos que mexam pés,  cabeças ou dedos, mesmo que estes movimentos se tornem apenas perceptíveis através da filtragem ampliadora de um microscópio. Nenhum sopro as move por dentro. São inércia. São de uma insensibilidade atroz. Indiferentes ao mundo, nem sequer vegetam. E, contudo, afirmo-te eu com a maior das convicções, elas são dotadas de outros atributos, não mais pobres dos nomeados. Como, por vezes, é tão ilusória aquilo que se toma por realidade. E o contrário disso! Experimenta pegando nesta pedra leve e curiosamente tão geometricamente regular. Sente. Não ficas a conhecer a sua temperatura? Não é um pouco mais baixa da do ar que se respira nesta cave? Apura a sensibilidade da polpa dos teus dedos. Não é capaz de cortar? Libertando-a do pó, toca-a com a língua e os dentes. Nenhuma sensação a dureza, a resistência, a eternidade ou quase eternidade? E, por fim, apura o teu ouvido. Apenas silêncio? Vá! Aplica o teu ouvido de uma forma inabitual, como se, de catana em punho, quisesses abrir por entre uma densíssima senda de ramos, teia de troncos, a mais espessa  folhagem, um estreito caminho, uma pequena clareira.

Escuta-a através de uma audição que não é menos tua, mas que nunca cuidas em exercitá-la. Escuta. Sim. Escuta. Um ruído que parece  formar-se de um redemoinho de água. Outro que parece vomitado  pela cratera de um vulcão. Outro ainda  que, de tão longínquo, se perde no Cosmos. Vem do Cosmos. É devolvido ao mistério isondável do Cosmos. Mas depois atenta para outros ruídos  que sobem e descem dentro de si, e mais próximos de ti. Não os reconheces? Exatamente! Sons de quem martela, usa bigorna, modela a vida com o barro que dispõe; sons de quem está cativo e chora; livre e grita. Sons de quem transporta em si mesmo a seiva do sangue, um esqueleto  de nervos e ossos; um coração que, ao contrário dos ponteiros do relógio, tem o seu tiquetaque  mais apressado quando corre; mais compassado quando quietamente adormece. 
Sons que parecem produzidos por zumbidos de abelhas ou asas de aves. Sons que, alinhados paralelamente a estes, parecem vir do berço ou da pequena cama  da tua infância. Sons da ( tua) humanidade, concentrados na proeza desta pequena pedra. Perguntarás: arqueólogo, tu? Nem pensar. Simples colecionista? Se tal for possível, menos do que isso. Apenas pelas sensações puras e intransmissíveis.


Há quem vá ao cinema com a expectativa  de sentir uma aventura, que é sempre do outro, e simular vivê-la. Há quem acumule frascos de perfume pela sensação que comunicam fluidos especiais ao serem usados nas trocas e andanças do quotidiano. Há quem viva mais penetrantemente ante a visão da morte de um touro uma arena. Há quem. Há sempre um quem qualquer que procura, com maior ou menor grau, deixar-se perpassar  por uma ou mais sensações. De outro modo, como teriam elas a consciência de que viver pode, aqui e além, ter sentido e ser prazer?
A recolha que fiz destas pedras deve-se, pois, tão só à necessidade física e mental de descer ao tempo humano e não humano. De sentir, através desse mergulho, a vertigem e o impacto ao bater no fundo, impossível de vislumbrar à superfície  da água. 
Mas deixa-me agora mudar de agulha, conduzindo-te para outro espaço da minha cave. Apenas mais cinco ou seis passos para a direita...Não mais!