terça-feira, 29 de novembro de 2016
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
E FAÇA EU BOA VIAGEM
Balanço
entre ir ou não! E, se for, quando? Para o mês que vem? Amanhã? Mas porque não
já? O quase paralítico do meu vizinho defronte, ainda está para assomar à
janela e ficar a ver o dia a passar pela rua, sem trazer nada de novo! E eu aqui, como
a olhar para um ecrã vazio à espera da projeção tardia de um filme! Como irrita! Mas
quando é que me decido a fazer as malas, quando? E quais malas, se tudo quanto
preciso é de encher um saco com roupa, umas tralhas, e pôr-me na alheta…
Entretanto,
o Citro, estacionado lá em baixo, parece ter acabado de revirar as óticas para
o vão da minha janela no segundo andar. Só
me falta ver o porta-bagagens a abrir-se, e eu à volta dele! O pior é, ao continuar
a ver-me na rua, nunca mais sair... Apesar de não terem sido poucas as
viagens que tenho empreendido dentro de casa. Para tal, basta distrair-me! Sonhar
com um sonho, e lá vou eu adiante!... Raras vezes por caminhos que já conheço, mas por
outros, que pouca ideia faço como sejam! O meu interesse particular pelo ignoto futuro a sobrepor-se
ao meu passado déja vu! Nada a fazer. Fiz-me assim, e não posso voltar para
trás!
Por
um instante, olho para a manhã que cai, suave, roçando a frontaria dos prédios,
refrescando-me a cabeça reclinada para o passeio, lá em baixo... Sim, a rua está cheia da
manhã! E eis que o meu vizinho do outro lado, faz a sua aparição. É um relógio. Não
de cuco! Mas de um aceno imediato, dirigido a mim que, como um tiro,
atravessa a largura da rua, obrigando-me com algum esforço, a devolver-lhe a
saudação. Sorri, e sorrio como quem mete uma moeda numa máquina da sorte e não
sai nada. Porque logo depois, o que cada um faz, é olhar: ele para o lado poente
da rua; eu, ora para nascente, ora para o céu, cada vez mais luminoso e sem uma
nuvem.
Nenhuma dúvida! Espera-se bom
tempo, e não seria má ideia que desse um empurrão em mim próprio, fosse fazer o
saco, e daqui a uma hora estivesse a rodar a chave da ignição do Citro que, nesta
altura, mantém os faróis orientados na direção da porta do meu prédio, com ar -
imagino - de quem perdeu alguma guerra.
Sim, o cinzento não lhe cai nada bem. Desde o primeiro momento em que o trouxe,
novo, em folha, do stande. Seja em que
estação do ano for, o cinzento é uma
cor que me leva sempre a pensar em
como beneficiaria ser alterada para outro tom!
Mas
que raio! Onde é que eu pus as t-shirts do lobo estampado, a uivar enganosamente à lua cheia e a da árvore solitária
everdescendo no meio do deserto? Ora, ali estão: na corda bamba da roupa da
varanda de trás, juntamente com não sei quantos pares de peúgas;
umas calças de ganga, o blusão a que não faltam bolsos, sequer em cima dos
ombros… Quase toda a roupa que preciso para encher o saco, como bandeiras
desfraldadas ao vento num dia de festa de um lugar campónio, a que não falta
sequer um par de ténis já enxutos! E
quem sabe se um dia não virei mesmo a pendurar no arame da roupa o par de
óculos de sol, bastando para tal deixar-me enlouquecer!
E do que mais preciso?
O estojo da higiene, o telelé desligado, uns enlatados, as indispensáveis pastilhas
rennie, não posso esquecer o corta-unhas e a faca de mato, um objeto chama
outro; um bloco de notas, quero lá saber da máquina fotográfica e dos binóculos;
o cartão multibanco, o michelin, os
documentos, ah!, o teu retrato tirado há
quantos anos atrás, sim, tu, emoldurada
num passepartout, mas virada do avesso, para evitar a tentação de te fitar a
toda a hora; tu, sempre tu, com a blusa de seda, cor de rosa, que te ofereci… E,
por fim, a tenda de campismo encaixotada no fundo da despensa… Já não volto atrás. Vou partir mesmo, e quanto
antes.
Mal ponho o pé na rua, arrastando a bagagem, logo os faróis dianteiros do Citro, parecem pestanejar, brilhando como se tivessem acabado de ser esfregados com um limpa vidros. E poderia quebrar, agora, o hábito de me limitar apenas a acenar ao velho a partir da janela, saudando-o com um sonoro bom dia, aqui, da rua Mas nunca tendo cumprimentado até hoje nenhum vizinho, salvo a Alice do quinto esquerdo, não quero criar nenhuma exceção. Sim. Bastou-me olhá-lo de soslaio, para imaginar o velho, a morder-se de curiosidade em saber para onde vou…
Mas pode
lá ser! De repente, de uma ponta à outra da rua, rara é a soleira da porta, peitoril
de janela ou varanda em que não surpreenda um vizinho, quase sempre reformado
ou no desemprego, deixando escapar uns calorosos bravos, vivas e berros
esfuziantes, à minha iminente partida!
Uma
espontânea e inusitada celebração festiva, sem estampidos de foguetes, é certo,
fanfarra de bombeiros, desfile hípico ou de ranchos folclóricos, mas a que não
faltam as timbradas variações sopradas pelo clarinete do filho do farmacêutico,
que deve ter faltado às aulas, bem como nuvens e nuvens multicolores de pétalas
de flores, chuva de confetis, e feéricas serpentinas; e muitos, imensos balões
de s. joão pelo ar, criando uma certa confusão entre os pombos implantados nos
beirais, não menos apreensivos quanto eu, face a tão transbordante euforia, rompendo com a costumaz
pasmaceira da rua...
E quem, afinal, poderia estar mais à altura do que eu de
tamanho regozijo? Só visto: eu apeado no meio do asfalto, a agradecer, curvado
como um chinês, a avalanche das gritadas ovações que quase me subterram, tais
como:" põe-te a milhas e não voltes"; "já devias lá estar";
e " olha se te acontece como ao outro que!..." E agora, com a maior
franqueza: fosse vaidoso, e babava-me; fosse de chorar por dá cá aquela palha
e, em pouco tempo, haveria de tornar o leito seco desta rua num impetuoso curso
de água! Só contando com as minhas lágrimas! Mais nada!
E
é assim que, de seguida, me deixo rolar, brandamente, ao volante do Citro até atingir o
cruzamento, onde travo para olhar pelo retrovisor. E o que entrevejo? Não a rua
de há instantes, plenamente animada de vivas, ovações e gritos; daquele
esfuziante movimento, de gente e mais gente, mas antes o lugar de estar tudo invariavelmente na mesma, como quando a surpreendo quer ao entrar, quer ao sair de casa, sem que haja alguém a
perguntar-me, então como vai!...
Ora,
eu estou sempre bem, obrigado! E melhor ainda, ao pensar no dia que fará à
tarde: quente como eu gosto, e longe da rua onde moro, com aquele
subdesenvolvido canteiro, um arbusto só regado pelas chuvas, sem ter
florido uma só vez; e uma série de candeeiros que nunca me deu para contar, mesmo quando à janela, nada me ocorre sobre o que possa fazer...
Enfim,
a minha rua de sempre, deixada já para trás, ponto final, cai o pano, adeus!...
E faça eu boa viagem!
Lisboa, Lumiar, Novembro,2016
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
terça-feira, 22 de novembro de 2016
O Sol no Teto
Na Medina de Fez

Canso os pés
Na pedra da calçada
As mãos no saibro
De uma esquina
Arrasto um fardo
De terra preso
Ao fundo da boca
Coso e remendo
As minhas sílabas
Que são tantas
Quantos os poros
Do meu corpo
Prolongo-me no braço
A quem peço
Que me compre
Que me venda
Que me troque
Uma moeda
O olhar
De uma palavra
Alto Atlas
Aldeia a Sul
Searas de Casablanca
Direi que a FUGA fica ao sul onde mora a
In " O Sol no Teto", 1984 - Desenhos de Pissarra Luís
Canso os pés
Na pedra da calçada
As mãos no saibro
De uma esquinaArrasto um fardo
De terra preso
Ao fundo da boca
Coso e remendo
As minhas sílabas
Que são tantas
Quantos os poros
Do meu corpo
Prolongo-me no braço
A quem peço
Que me compre
Que me venda
Que me troque
Uma moeda
O olhar
De uma palavra
Alto Atlas
Esforço de dentes e raiva
Ante a dimensão da paisagem
E calar
Ter pronta a saliva
E não morder
Sentir apenas
O tato leve
Da semente
A forma
Nunca a síntese
Sempre
Aldeia a Sul
A prumo
A tua voz cai
No arco da duna
Uma raiz
Uma lágrima
Um poço
Perto
A porta aberta
Duma casa
Searas de Casablanca
Caminho de seara
No meio azul da pedra
Caminho de trigo
Que é o meu
A tempestade
Não governa a fome
A ordem da cidade
Não me cala a boca
Amanhã
Hei de falar com o sol
Dentro de casa
Direi que a FUGA fica ao sul onde mora a
memória e que o percurso das sílabas
não é fácil. Direi que, uma vez chegados
à ultima fronteira do texto, perdemos
para sempre o vago conceito de limite.
A partir daí é o excesso.
Coisas para meter medo aos pássaros
Uns eram moços
sadios. Outros, já adultos, um pouco "loucos", mas ainda com tino
bastante para afugentarem os pardais que vinham ao grão dos lavradores.Então, corriam de braços abertos, apanhando aqui e ali pedras do chão que logo arremessavam contra os intrusos, aos gritos como numa zanga a sério, enquanto os chocalhos, amarrados à cintura, a par de outros penduricalhos de ferro ou latão, se faziam ouvir em redor.
Espanta-pássaros de
carne e osso, está visto, que procuravam
evitar a rapinagem do pão nas searas do Alentejo, e que apenas são relembrados por alguns velhos…
Hoje, contam-se os
espantalhos que restam nas hortas e pomares, não passando de uns esqueletos
quase sempre masculinos, envoltos em palha e trapos velhos, almofadados com uma
blusa, camisola, algum casacão esburacado.
Quando não se restringem
à configuração de meras silhuetas humanas, recortadas á serra numa tábua de
madeira, ou esculpidas a partir de um espesso e leve bloco de esferovite.
Sim,
porque um único ramo implantado na terra, donde se suspende uma saia rota, um
colorido saco de plástico, ou o testo de uma panela, não pode ser tomado como um
verdadeiro espantalho, apesar de, à mais ligeira deslocação do ar, a pendureza
se agitar, provocar ruído, soar a alarme….
Quanto
a mim, estes simples engenhos mais não são do que meros símbolos hasteados, significando qualquer linguagem obscura,
instrumentos mágicos contra o mau olhado; expedientes usados para fazerem
recair sobre alguém uma maldição, um mau feitiço, não sei!...
Mas
para o Zé da Bica, que trabalha numa oficina de mecânica de automóveis, e aos
fins de semana cuida de uma pequena parcela de terra na região saloia, não lhe
resta qualquer dúvida:
" sejam o que
forem, são coisas para meter medo aos pássaros! "
in Notícias Magazine, Novembro,1998 ( texto e fotos do autor)
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
sábado, 12 de novembro de 2016
Luíz Pacheco
A próxima criancinha a desaparecer sou eu
Foi em Palmela que entrei numa
parvoíce entre um incontável número delas que, em mim, posso assegurá-lo,
explodem por gestação espontânea, como as silvas, as alcachofras, os
trevos…Tudo o que é mato!
E a parvoíce em causa ocorreu na
presença de dois colegas e de duas pessoas que me eram desconhecidas. Sem
qualquer propósito, como quem atira à queima-roupa, o que me deu para dizer?
Nem mais, nem menos do que isto:
“Imaginem que há um bom par de
dias tenho andado à procura do doido do Luís Pacheco, e nada!”
E à falta de qualquer reacção
exclamativa, sequer umas subtis reticências, continuei:
“Olhem que até cheguei a ir,
ontem, ao Júlio de Matos!”
Sem eco algum por parte dos meus
ouvintes, e achando por bem acabar depressa com a questão introduzida,
arrematei:
“ Segundo um funcionário daquela
instituição, o gajo teria já saído há bastante tempo. Paciência!”
E foi então que, em acabando de
mandar esta boca, um dos dois desconhecidos me interpelou do mesmo modo com que
lhe poderia ter dado para um puxão de orelhas:
“ Mas o meu pai nunca esteve no Júlio de Matos!”
Aí, de mim para mim, e dando um passo atrás como quem acaba
de ser baleado:
“Ó, desgraçado! já acabaste de ganhar o dia! Ora, quando é
que aprendes a ter algum tento na língua?”
E, de imediato, para o desconhecido, tentando branquear o
suposto equívoco:
“Afinal, apenas me limitei a
seguir a indicação dada por um amigo de que se encontrava lá, e eu queria
falar-lhe”
Dizendo isto, dei às de Vila Diogo,
despedindo-me dos dois colegas bem como dos dois desconhecidos, às cambalhotas
cá por dentro…
Passado, não importa quanto tempo, um, dois, três meses,
peguei na “ Comunidade” do Luís Pacheco e pus-me a relê-la. E ao relê-la, a
certa altura, perguntei a mim mesmo:
“Por que não a retalhas como se
faz ao pão, às fatias, e entre os espaços não lhe metes música para ver o que
dá?”
De seguida, dando continuidade a
alguns monólogos que, já nessa altura, me habituara a travar comigo
acrescentei:
“ Vá lá, pega nessa pequena e
grande estória, ( uma 7ª edição dedicada a “ Mário Cesariny de Vasconcelos,
poeta do corpo”) e, para a frente é que é o caminho, pois não existem provas que a coisa não resulte”
E Fui. Logo que cheguei casa,
pus-me a fragmentar a “Comunidade” sem alterar a ordenação, mantendo o mesmo
fio condutor com que o Pacheco a escreveu. Nada de adicionar ou subtrair o que
quer que seja, entremeando-a apenas com a anotação de uns trechos musicais que
ainda recordo: da Edith Piaf, ( La vie
en Rose, salvo erro); do Léo Ferré; do Bruce Springsteen; dos Doors; não
sei porque carga de água do Vangelis no L’ Apocalypse… Tudo isto e mais uns
outros, para além de alguns efeitos especiais que pudessem sugerir a ondulação do mar, nuns casos, do vento, noutros…
Acabado este trabalho, peguei no telefone para
contactar o Moreno Pinto perguntando-lhe:
“Será que poderei, amanhã, ao
princípio da tarde, fazer uma gravação?
Pelo que me respondeu:
“Sim, o estúdio está disponível.
Aparece!”
E, no dia
seguinte, comecei a gravar o livro com o apoio técnico do Moreno recheando-a,
aqui e ali, com os textos musicais previamente seleccionados e de acordo com o
guião manuscrito que havia concebido entre os joelhos. Não sem antes ter dito
para o microfone uma frase que ainda a conservo bem presente, extraída dos “
Exercícios de Estilo” do LP:
“ A próxima
criancinha a desaparecer sou eu”
Ao cabo de duas
horas, com a missão cumprida, o M.P, muito competente e pessoa que eu estimava
disse, provavelmente, para me agradar:
“Parece-me estar muito bom”
E eu:
“Oxalá que não
tenha ficado muito mal…”
Era Agosto e, no
dia seguinte, já com as malas feitas, pirei-me com a Guida e uns amigos para o
Norte. Ora, como as ondas hertzianas da Telefonia de Lisboa, ali, no Bairro
Alto, não chegassem tão longe, nunca mais pensei no programa. Mas sei,
entretanto, que através de uma pessoa
(que não recordo quem seja) foi comunicado ao L .P a transmissão da peça prevista para uma data
muito próxima…
Acabado o tempo
de veraneio, e regressado à Telefonia para a produção de mais um programa do
“Astrolábio”, um colega da rádio interpelou-me, logo, á entrada da emissora
dizendo:
“ Olha que uma
hora depois da tua gravação ter ido para o ar, o L P apareceu por aqui, para
dar um abraço ao cabrão que lhe tinha pregado semelhante partida…”
E outro colega
completou:
“ E trouxe duas
embalagens cheias de pastéis de nata de Belém que distribuiu por todo o pessoal
sobrando ainda uma porção deles…”
E o primeiro
colega acrescentou:
“ Pasteis e uma
mão cheia de livros, pedindo para te entregar dois, e que lhe ligasses para
este número que ele quer falar-te”
E o segundo
colega voltou:
“ Sabes que o
gajo estranhou não te ter visto, perguntando por onde é que andarias, sendo de
todo previsível encontrar-te aqui... Se serias algum espírito santo a voar por
todo o lado ou, hipótese mais plausível, um demónio…”
Depois destes
breves dedos de conversa, peguei no par de Comunidades deixado para mim,
deparando numa delas ( na página consagrada ao título da obra, autoria do
escritor e dos desenhos nela contidos ( Mar) um texto manuscrito pelo punho do
Pacheco:
“ Gostei de te
ouvir e pior: lembra que sou cardíaco. O programa teria agradado? Eu, ao
ouver-te ( ? ) capacéssimo, não chorei por vergonha - de gozo, de prazer, de
SÔDADES, e tinha-me prevenido com ½ flindix ( ? ) e ½ valium 10 “
E, ainda,
caligrafado na vertical (para suprir a falta de espaço) a assinatura á qual
acrescentou a data da sua passagem pela Telefonia de Lisboa, em 8 do 8 de 88 :
“ Obrigado e
gostaria de te conhecer. VALE? “
Não lembro quanto tempo depois disquei o número de telefone para
combinar com o Pacheco o dia e o lugar do encontro que haveria de ocorrer na
entrada da Universidade Clássica de Lisboa. E, embora nunca o tivesse visto, ao
vivo, reconheci-o de imediato, pois não me pareceu poder ser outro: com umas
calças muito largueironas, esverdeadíssimas, sapatos com os atacadores ao
vento, armações de óculos, grossas, um pouco magro, sim, só poderia ser ele!
Então cumprimentamo-nos e não sei qual de nós foi mais entusiasta nas
considerações que fez. Ele sobre o programa que estava uma “boa merda”; eu,
sobre o seu livro que, de tanto gostar, o impingia aos amigos lendo-o em voz
alta.
Acabada esta
troca de galhardetes, logo o Pacheco, com quem esperava ir beber um copo,
inesperadamente, se apressou a mostrar urgência em apanhar o Metro, pelo que me
dispus a conduzi-lo até à estação do Campo Grande, no 127.
Embora o
trajecto fosse curto, é para esquecer… Tal como os ruídos expelidos pelo tubo
de escape roto e do trânsito penetrando pela janela, que o Pacheco fez questão
em manter toda escancarada, suponho eu, para respirar melhor…
Sem exageros e,
não padecendo, nesse tempo, de falta de audição, não fui capaz de agarrar uma
palavra, apesar de ele falar, falar durante todo o itinerário…
Só quando
chegados ao objectivo previsto, com o motor calado, e apeados no passeio, pude
ouvi-lo com muita clareza. Disse então:
“Moro na rua… (
fosse lembrar-me qual) e caso queiras aparecer… a gente abre uma garrafinha do
tintol e serramos algum presunto… Mas presta atenção: terás que tocar à
campainha ( ou seria um batente?) e
se, porventura, não te abrir a porta,
então, pegas num calhau e atira-o contra o vidro da janela. Mas com o devido
cuidado, não vás parti-lo… É que a filha da puta da vizinha de cima mói-me a
tola com a Rádio Renascença sempre aos berros e eu para a calar, abro o volume
todo, mas todo da Rádio Comercial…
Nunca
correspondi ao convite do Luís Pacheco em aparecer-lhe, sendo que os
compromissos com a rádio, os trabalhos impostos pela Faculdade, o tempo, sempre
pouco e vertiginoso dedicado ao enamoramento da altura, a par de outras
ocupações, não servirão plenamente, talvez, para justificar a minha falta...
Não apareci e,
claro, hoje é demasiado tarde para voltar atrás!
E, também,
jamais voltei a ouvir a cassete com o registo da emissão. Sequer sei onde encontrá-la.
E que razão há, hoje, em procurá-la?
R. M
Lisboa, 19 de
Janeiro de 2008
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