terça-feira, 29 de novembro de 2016

Prato da Ordem Militar de Santiago



Não se trata de um restauro, mas da  réplica de um prato em louça comum, modelado a partir de raros fragmentos pessoalmente recolhidos na vertente Sul do Castelo de Palmela.

Facilmente identificado com a insígnia da Ordem Militar de Santiago, e apesar da preocupação de produzir a peça de acordo com as dimensões próprias, não se garante o cumprimento rigoroso desse desígnio.

Por último, o exemplar em causa (objeto de oferta e com a numeração zero inscrita na sua base), foi dado a executar  em Março de 1988 às mãos de uma artesã da região de Palmela, cujo nome não se tem presente.



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

E FAÇA EU BOA VIAGEM



Balanço entre ir ou não! E, se for, quando? Para o mês que vem? Amanhã? Mas porque não já? O quase paralítico do meu vizinho  defronte, ainda está para assomar à janela e ficar a ver o dia  a passar pela rua, sem trazer nada de novo! E eu aqui, como a olhar para um ecrã vazio à espera da projeção tardia de um filme! Como irrita! Mas quando é que me decido a fazer as malas, quando? E quais malas, se tudo quanto preciso é de encher um saco com roupa, umas tralhas, e pôr-me na alheta… 




Entretanto, o Citro, estacionado lá em baixo, parece ter acabado de revirar as óticas para o vão da minha janela no segundo andar.  Só me falta ver o porta-bagagens a abrir-se, e eu à volta dele! O pior é, ao continuar a ver-me na rua, nunca mais sair...  Apesar de não terem sido poucas as viagens que tenho empreendido dentro de casa. Para tal, basta distrair-me! Sonhar com um sonho, e lá vou eu adiante!... Raras vezes por caminhos que já conheço, mas por outros, que pouca ideia faço como sejam! O meu interesse particular pelo ignoto futuro a sobrepor-se  ao meu passado déja vu! Nada a fazer. Fiz-me assim, e não posso voltar para trás!


Por um instante, olho para a manhã que cai, suave, roçando a frontaria dos prédios, refrescando-me a cabeça reclinada para o passeio, lá em baixo... Sim, a rua está cheia da manhã! E eis que o meu vizinho do outro lado, faz a sua aparição. É um relógio. Não de cuco! Mas de um aceno imediato, dirigido a mim que, como um tiro, atravessa a largura da rua, obrigando-me com algum esforço, a devolver-lhe a saudação. Sorri, e sorrio como quem mete uma moeda numa máquina da sorte e não sai nada. Porque logo depois, o que cada um faz, é olhar: ele para o lado poente da rua; eu, ora para nascente, ora para o céu, cada vez mais luminoso e sem uma nuvem.  

Nenhuma dúvida! Espera-se bom tempo, e não seria má ideia que desse um empurrão em mim próprio, fosse fazer o saco, e daqui a uma hora estivesse a rodar a chave da ignição do Citro que, nesta altura, mantém os faróis orientados na direção da porta do meu prédio, com ar - imagino -  de quem perdeu alguma guerra. Sim, o cinzento não lhe cai nada bem. Desde o primeiro momento em que o trouxe, novo, em folha,  do stande. Seja em que estação do ano for, o cinzento é uma cor que me leva sempre a pensar em como beneficiaria ser alterada para outro tom!




Mas que raio! Onde é que eu pus as  t-shirts    do lobo estampado, a uivar enganosamente à lua cheia e a da árvore solitária everdescendo no meio do deserto? Ora, ali estão: na corda bamba da roupa da varanda de trás, juntamente com não sei quantos pares de peúgas; umas calças de ganga, o blusão a que não faltam bolsos, sequer em cima dos ombros… Quase toda a roupa que preciso para encher o saco, como bandeiras desfraldadas ao vento num dia de festa de um lugar campónio, a que não falta sequer  um par de ténis já enxutos! E quem sabe se um dia não virei mesmo a pendurar no arame da roupa o par de óculos de sol, bastando para tal deixar-me enlouquecer! 


E do que mais preciso? O estojo da higiene, o telelé desligado, uns enlatados, as indispensáveis pastilhas rennie, não posso esquecer o corta-unhas e a faca de mato, um objeto chama outro; um bloco de notas, quero lá saber da máquina fotográfica e dos binóculos; o cartão multibanco, o michelin,  os documentos, ah!, o teu retrato tirado há quantos anos atrás, sim,  tu, emoldurada num passepartout, mas virada do avesso, para evitar a tentação de te fitar a toda a hora; tu, sempre tu, com a blusa de seda, cor de rosa, que te ofereci… E, por fim, a tenda de campismo encaixotada no fundo da despensa…  Já não volto atrás. Vou partir mesmo, e quanto antes.


Mal ponho o pé na rua, arrastando a bagagem, logo os faróis dianteiros do Citro, parecem pestanejar, brilhando como se tivessem acabado de ser esfregados com um limpa vidros. E poderia quebrar, agora, o hábito de me limitar apenas a acenar ao velho a partir da janela, saudando-o com um sonoro bom dia, aqui, da rua  Mas nunca tendo cumprimentado até hoje nenhum vizinho, salvo a Alice do quinto esquerdo, não quero criar nenhuma exceção. Sim. Bastou-me olhá-lo de soslaio, para imaginar o velho, a morder-se de curiosidade em saber para onde vou…


Mas pode lá ser! De repente, de uma ponta à outra da rua, rara é a soleira da porta, peitoril de janela ou varanda em que não surpreenda um vizinho, quase sempre reformado ou no desemprego, deixando escapar uns calorosos bravos, vivas e berros esfuziantes, à minha iminente partida!


Uma espontânea e inusitada celebração festiva, sem estampidos de foguetes, é certo, fanfarra de bombeiros, desfile hípico ou de ranchos folclóricos, mas a que não faltam as timbradas variações sopradas pelo clarinete do filho do farmacêutico, que deve ter faltado às aulas, bem como nuvens e nuvens multicolores de pétalas de flores, chuva de confetis, e feéricas serpentinas; e muitos, imensos balões de s. joão pelo ar, criando uma certa confusão entre os pombos implantados nos beirais, não menos apreensivos quanto eu, face a tão  transbordante euforia, rompendo com a costumaz pasmaceira da rua... 

E quem, afinal, poderia estar mais à altura do que eu de tamanho regozijo? Só visto: eu apeado no meio do asfalto, a agradecer, curvado como um chinês, a avalanche das gritadas ovações que quase me subterram, tais como:" põe-te a milhas e não voltes"; "já devias lá estar"; e " olha se te acontece como ao outro que!..." E agora, com a maior franqueza: fosse vaidoso, e babava-me; fosse de chorar por dá cá aquela palha e, em pouco tempo, haveria de tornar o leito seco desta rua num impetuoso curso de água! Só contando com as minhas lágrimas! Mais nada!


E é ao cabo de agitados e sentidos adeuses que, por fim, me decido a entrar no citro,  acelerar a fundo em ponto morto, por forma a provocar  aquele estridente brum, brrum, brrrum, tão próprio  dos bólides de alta competição, prestes a largarem da linha de partida! Brum, brrum, brrrum, como se o motor, a todo o instante, pudesse escapulir-se pelo tubo de escape; Brum, brrum, brrrum, à tão esfuziante e inesperada receção dos meus vizinhos; brum, brrum, brrrum,  ás sardinheiras vermelhas da minha varanda, que me  regalam e arregalam os olhos da alma; brum, brrum, brrrum, á menina do balcão do cabeleireiro, que ainda não a vi hoje; brum, brrum, brrrum, à sorte grande deste banho de alegria a cair-me em cima.


E é assim que, de seguida, me deixo rolar, brandamente, ao volante do Citro até atingir o cruzamento, onde travo para olhar pelo retrovisor. E o que entrevejo? Não a rua de há instantes, plenamente animada de vivas, ovações e gritos; daquele esfuziante movimento, de gente e mais gente, mas antes o lugar de estar tudo  invariavelmente na mesma, como quando a surpreendo quer ao entrar, quer ao sair de casa, sem que haja alguém a perguntar-me, então como vai!... 


Ora, eu estou sempre bem, obrigado! E melhor ainda, ao pensar no dia que fará à tarde: quente como eu gosto, e longe da rua onde moro, com aquele subdesenvolvido canteiro, um arbusto só regado pelas chuvas, sem ter florido uma só vez; e uma série de candeeiros que nunca me deu para contar, mesmo quando à janela, nada me ocorre sobre o que possa fazer...


Enfim, a minha rua de sempre, deixada já para trás, ponto final, cai o pano, adeus!... E faça eu boa viagem!

                                                        
                                                                                      Lisboa, Lumiar, Novembro,2016

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O Sol no Teto

 Na Medina de Fez

Canso os pés
Na pedra da calçada
As mãos no saibro 
De uma esquina


Arrasto um fardo
De terra preso
Ao fundo da boca

Coso e remendo
As minhas sílabas
Que são tantas 
Quantos os poros
Do meu corpo

Prolongo-me no braço
A quem peço

Que me compre
Que me venda
Que me troque

Uma moeda
O olhar
De uma palavra
  



Alto Atlas

Esforço de dentes e raiva
Ante a dimensão da paisagem

E calar
Ter pronta a saliva
E não morder

Sentir apenas
O tato leve 
Da semente

A forma

Nunca a síntese

Sempre



Aldeia a Sul

A prumo
A tua voz cai
No arco da duna

Uma raiz
Uma lágrima
Um poço

Perto
A porta aberta
Duma casa



Searas de Casablanca

Caminho de seara
No meio azul da pedra

Caminho de trigo
Que é o meu

A tempestade
Não governa a fome

A ordem da cidade
Não me cala a boca

Amanhã
Hei de falar com o sol
Dentro de casa




Direi que a FUGA fica ao sul onde mora a
memória e que o percurso das sílabas 
não é fácil. Direi que, uma vez chegados
à ultima fronteira do texto, perdemos
para sempre o vago conceito de limite.
A partir daí é o excesso.

In " O Sol no Teto", 1984 - Desenhos de Pissarra Luís

Coisas para meter medo aos pássaros



Uns eram moços sadios. Outros, já adultos, um pouco "loucos", mas ainda com tino bastante para afugentarem os pardais que vinham  ao grão dos lavradores.

Então, corriam de braços abertos, apanhando aqui e ali pedras do chão que logo arremessavam contra os intrusos, aos gritos como numa zanga a sério, enquanto os chocalhos, amarrados à cintura, a par de outros penduricalhos de ferro ou latão, se faziam ouvir em redor.
 
Espanta-pássaros de carne e osso, está visto, que  procuravam evitar a rapinagem do pão nas searas do Alentejo, e  que apenas são relembrados por alguns velhos… 

Hoje, contam-se os espantalhos que restam nas hortas e pomares, não passando de uns esqueletos quase sempre masculinos, envoltos em palha e trapos velhos, almofadados com uma blusa, camisola, algum casacão esburacado. 

Quando não se restringem à configuração de meras silhuetas humanas, recortadas á serra numa tábua de madeira, ou esculpidas a partir de um espesso e leve bloco de esferovite.

Sim, porque um único ramo implantado na terra, donde se suspende uma saia rota, um colorido saco de plástico, ou o testo de uma panela, não pode ser tomado como um verdadeiro espantalho, apesar de, à mais ligeira deslocação do ar, a pendureza se agitar, provocar ruído, soar a alarme….
 
Quanto a mim, estes simples engenhos mais não são do que meros símbolos hasteados, significando qualquer linguagem obscura, instrumentos mágicos contra o mau olhado; expedientes usados para fazerem recair sobre alguém uma maldição, um mau feitiço, não sei!...

Mas para o Zé da Bica, que trabalha numa oficina de mecânica de automóveis, e aos fins de semana cuida de uma pequena parcela de terra na região saloia, não lhe resta qualquer dúvida:

" sejam o que forem,  são coisas para meter medo aos pássaros! "


 in Notícias Magazine, Novembro,1998 ( texto e fotos do autor)

sábado, 12 de novembro de 2016

Luíz Pacheco




A próxima criancinha a desaparecer sou eu


Foi em Palmela que entrei numa parvoíce entre um incontável número delas que, em mim, posso assegurá-lo, explodem por gestação espontânea, como as silvas, as alcachofras, os trevos…Tudo o que é mato!

E a parvoíce em causa ocorreu na presença de dois colegas e de duas pessoas que me eram desconhecidas. Sem qualquer propósito, como quem atira à queima-roupa, o que me deu para dizer? Nem mais, nem menos do que isto:

“Imaginem que há um bom par de dias tenho andado à procura do doido do Luís Pacheco, e nada!”

E à falta de qualquer reacção exclamativa, sequer umas subtis reticências, continuei:

“Olhem que até cheguei a ir, ontem, ao Júlio de Matos!”

Sem eco algum por parte dos meus ouvintes, e achando por bem acabar depressa com a questão introduzida, arrematei:

“ Segundo um funcionário daquela instituição, o gajo teria já saído há bastante tempo. Paciência!”

E foi então que, em acabando de mandar esta boca, um dos dois desconhecidos me interpelou do mesmo modo com que lhe poderia ter dado para um puxão de orelhas:

“ Mas o meu pai nunca esteve no Júlio de Matos!”

Aí, de mim para mim, e dando um passo atrás como quem acaba de ser baleado:

“Ó, desgraçado! já acabaste de ganhar o dia! Ora, quando é que aprendes a ter algum tento na língua?”

E, de imediato, para o desconhecido, tentando branquear o suposto equívoco:

“Afinal, apenas me limitei a seguir a indicação dada por um amigo de que se encontrava lá, e eu queria falar-lhe”

 Dizendo isto, dei às de Vila Diogo, despedindo-me dos dois colegas bem como dos dois desconhecidos, às cambalhotas cá por dentro…


Passado, não importa quanto tempo, um, dois, três meses, peguei na “ Comunidade” do Luís Pacheco e pus-me a relê-la. E ao relê-la, a certa altura, perguntei a mim mesmo:

“Por que não a retalhas como se faz ao pão, às fatias, e entre os espaços não lhe metes música para ver o que dá?”

De seguida, dando continuidade a alguns monólogos que, já nessa altura, me habituara a travar comigo acrescentei:

“ Vá lá, pega nessa pequena e grande estória, ( uma 7ª edição dedicada a “ Mário Cesariny de Vasconcelos, poeta do corpo”) e, para a frente é que é o caminho, pois  não existem provas que a coisa não resulte”

E Fui. Logo que cheguei casa, pus-me a fragmentar a “Comunidade” sem alterar a ordenação, mantendo o mesmo fio condutor com que o Pacheco a escreveu. Nada de adicionar ou subtrair o que quer que seja, entremeando-a apenas com a anotação de uns trechos musicais que ainda recordo: da Edith Piaf, ( La vie  en Rose, salvo erro); do Léo Ferré; do Bruce Springsteen; dos Doors; não sei porque carga de água do Vangelis no L’ Apocalypse… Tudo isto e mais uns outros, para além de alguns efeitos especiais que pudessem sugerir  a ondulação do mar, nuns casos,  do vento, noutros…

 Acabado este trabalho, peguei no telefone para contactar o Moreno Pinto perguntando-lhe:

“Será que poderei, amanhã, ao princípio da tarde, fazer uma gravação?

Pelo que me respondeu:

“Sim, o estúdio está disponível. Aparece!”

E, no dia seguinte, comecei a gravar o livro com o apoio técnico do Moreno recheando-a, aqui e ali, com os textos musicais previamente seleccionados e de acordo com o guião manuscrito que havia concebido entre os joelhos. Não sem antes ter dito para o microfone uma frase que ainda a conservo bem presente, extraída dos “ Exercícios de Estilo” do LP:

“ A próxima criancinha a desaparecer sou eu”

Ao cabo de duas horas, com a missão cumprida, o M.P, muito competente e pessoa que eu estimava disse, provavelmente, para me agradar:

 “Parece-me estar muito bom”

E eu:

“Oxalá que não tenha ficado muito mal…”

Era Agosto e, no dia seguinte, já com as malas feitas, pirei-me com a Guida e uns amigos para o Norte. Ora, como as ondas hertzianas da Telefonia de Lisboa, ali, no Bairro Alto, não chegassem tão longe, nunca mais pensei no programa. Mas sei, entretanto, que através de uma pessoa  (que não recordo quem seja) foi comunicado ao L .P  a transmissão da peça prevista para uma data muito próxima…


Acabado o tempo de veraneio, e regressado à Telefonia para a produção de mais um programa do “Astrolábio”, um colega da rádio interpelou-me, logo, á entrada da emissora dizendo:

“ Olha que uma hora depois da tua gravação ter ido para o ar, o L P apareceu por aqui, para dar um abraço ao cabrão que lhe tinha pregado semelhante partida…”

E outro colega completou:

“ E trouxe duas embalagens cheias de pastéis de nata de Belém que distribuiu por todo o pessoal sobrando ainda uma porção deles…” 

E o primeiro colega acrescentou:

“ Pasteis e uma mão cheia de livros, pedindo para te entregar dois, e que lhe ligasses para este número que ele quer falar-te”

E o segundo colega voltou:

“ Sabes que o gajo estranhou não te ter visto, perguntando por onde é que andarias, sendo de todo previsível encontrar-te aqui... Se serias algum espírito santo a voar por todo o lado ou, hipótese mais plausível, um demónio…”

Depois destes breves dedos de conversa, peguei no par de Comunidades deixado para mim, deparando numa delas ( na página consagrada ao título da obra, autoria do escritor e dos desenhos nela contidos ( Mar) um texto manuscrito pelo punho do Pacheco:

“ Gostei de te ouvir e pior: lembra que sou cardíaco. O programa teria agradado? Eu, ao ouver-te ( ? ) capacéssimo, não chorei por vergonha - de gozo, de prazer, de SÔDADES, e tinha-me prevenido com ½ flindix ( ? ) e ½ valium 10 “

E, ainda, caligrafado na vertical (para suprir a falta de espaço) a assinatura á qual acrescentou a data da sua passagem pela Telefonia de Lisboa, em 8 do 8 de 88 :

“ Obrigado e gostaria de te conhecer. VALE? “

                                                                                                                                                           Não lembro quanto tempo depois disquei o número de telefone para combinar com o Pacheco o dia e o lugar do encontro que haveria de ocorrer na entrada da Universidade Clássica de Lisboa. E, embora nunca o tivesse visto, ao vivo, reconheci-o de imediato, pois não me pareceu poder ser outro: com umas calças muito largueironas, esverdeadíssimas, sapatos com os atacadores ao vento, armações de óculos, grossas, um pouco magro, sim, só poderia ser ele! Então cumprimentamo-nos e não sei qual de nós foi mais entusiasta nas considerações que fez. Ele sobre o programa que estava uma “boa merda”; eu, sobre o seu livro que, de tanto gostar, o impingia aos amigos lendo-o em voz alta.

Acabada esta troca de galhardetes, logo o Pacheco, com quem esperava ir beber um copo, inesperadamente, se apressou a mostrar urgência em apanhar o Metro, pelo que me dispus a conduzi-lo até à estação do Campo Grande, no 127.

Embora o trajecto fosse curto, é para esquecer… Tal como os ruídos expelidos pelo tubo de escape roto e do trânsito penetrando pela janela, que o Pacheco fez questão em manter toda escancarada, suponho eu, para respirar melhor…
Sem exageros e, não padecendo, nesse tempo, de falta de audição, não fui capaz de agarrar uma palavra, apesar de ele falar, falar durante todo o itinerário… 

Só quando chegados ao objectivo previsto, com o motor calado, e apeados no passeio, pude ouvi-lo com muita clareza. Disse então:

“Moro na rua… ( fosse lembrar-me qual) e caso queiras aparecer… a gente abre uma garrafinha do tintol e serramos algum presunto… Mas presta atenção: terás que tocar à campainha ( ou seria um batente?)  e se,  porventura, não te abrir a porta, então, pegas num calhau e atira-o contra o vidro da janela. Mas com o devido cuidado, não vás parti-lo… É que a filha da puta da vizinha de cima mói-me a tola com a Rádio Renascença sempre aos berros e eu para a calar, abro o volume todo, mas todo da Rádio Comercial…

Nunca correspondi ao convite do Luís Pacheco em aparecer-lhe, sendo que os compromissos com a rádio, os trabalhos impostos pela Faculdade, o tempo, sempre pouco e vertiginoso dedicado ao enamoramento da altura, a par de outras ocupações, não servirão plenamente, talvez, para justificar a minha falta...

Não apareci e, claro, hoje é demasiado tarde para voltar atrás!

E, também, jamais voltei a ouvir a cassete com o registo da emissão. Sequer sei onde encontrá-la. E que razão há, hoje, em procurá-la?



R. M

Lisboa, 19 de Janeiro de 2008