sábado, 4 de fevereiro de 2017

CRÓNICAS DO TEJO ( DEZANOVE)


Pois eu só quero pensar em mim!


O Tejo? Ora, sumiu-se. O que há é a vasta massa rasante de água duma albufeira que parece não acabar diante dos olhos… Nem sei se me dá vontade de cair nesta paisagem, interditada por muros e vedações privadas envolvendo matagais, coutos, barrancos e vales, alguns dos quais destinados ao pastoreio de bovinos. E também algumas esparsas edificações, como a do clube náutico de Tajomar, estritamente facultado aos sócios...

O Tejo aqui foi eliminado como a palavra Tejo o é, bastando para isso uma ligeira pressão digital na tecla delete. Tampouco poderá vislumbrar-se nele algum vestígio do passado. Minto, que as ruínas da ponte romana de Mantilde ainda permitem calcular, durante a época seca, a dimensão do antigo leito…
Mas fora isso, como redesenhar o seu curso primitivo? Deslindar as sinuosidades das margens? Medir-lhe a fundura? Sentir a sua corrente? Só, talvez, deitar-me com o ouvido, como uma ventosa espalmada contra o chão, auscultando os sons ainda audíveis do passado! E é assim que ouço o rolar de um seixo pela água! E este incessante turbilhonar da corrente, semelhante ao sopro do vento nos búzios das velas de um antigo moinho! Ou ao prolongado estrondo de uma queda de água? Quando não mesmo ao motor de um avião em voo rente ao chão? Ao certo, não sei… Mas que é o rio a entrar-me pelo ouvido, a subir à cabeça e a descer ao coração, sem dúvida! O rio impetuoso pela época das chuvas invernais, a lascar os gumes das fragas entre as explosões fosforescentes de espuma, arrastando tudo à frente: árvores, pedras e animais. E eu só pesco amarrado a uma grossa corda atada à argola de ferro embutida na rocha, não vá deixar igualmente levar-me por ele!… Ou então não saio, mas para ficar a fazer o quê? A esmagar as gotas de chuva que escorrem pelo lado de fora da janela? A arrepiar-me com o vento ao entrar pelas frinchas dos vãos da casa? A sacudir as aranhas das suas teias? A descobrir fantasmas nas manchas dos tetos? O quê? O gado?! Quero eu lá saber dele! Que as águas não chegam ao estábulo, salvo se a terra vier a reclinar-se para esta banda, trazendo o rio até aqui, obrigando-o a mudar de curso! Mas aí, também se acabava a rega e o bebedouro dos animais! O próprio chão havia de afundar-se com o tumulto das águas! Uma calamidade com a qual não conto! Quanto ao gado e tudo o mais, que se amanhe, pois eu só quero pensar em mim! E nas coisas que me agradam: como na mulher que vi uma vez além! Na idade em que ainda não contava os anos meus e os dela! A mulher, quero dizer, a rapariga das argolas e das chinelas a baterem nos calcanhares, sempre que se punha a correr! E como ela corria, a esgueirar-se por esses pastos fora até ao Tejo!

Mas agora, e desde que permaneço à cuca com os rumores da terra, o que ouço? Ora, uma vozearia! Falas de antanho, onde entram histórias de secas e cheias, aparições e naufrágios, amores, crimes e desavenças!... E tudo isto, escuta, tendo por fundo um cântico de chilreares de pardais… Nostálgicas memórias de passados alheios, emudecidas de súbito por um ruído exterior que me cerca.

E eis então o que vejo: uma tribo de motares, com ar marciano, aterrando perto de mim. Mas será que me incomodam? Nem pensar! Antes me deixam ainda mais relaxado enquanto puxam pelos motores! Que gosto de ouvir bem alto tudo o que me agrada. Como quando acompanho uma banda de jazz mesmo nas filas da frente. Ou aumento o volume do rádio para ser ouvido no firmamento! E não deixar, num caso ou noutro, escapar uma única tecla, corda dedilhada, sopro de um metal...

E pudessem imaginar-me a tamborilar no tampo de uma mesa! É como se fossem pés a sapatear! Trabalho de dedos! Só! O indicador, o médio… o polegar a contrapor! De uma e outra mão, em alternância! Então, quando apanham os nós da madeira! Mas que sons! Ia a dizer: mais musicais, não? Talvez. Seja como for, o toque é outro, nota-se a diferença!... Mas que grande baterista eu poderia ter sido! Com as minhas mãos a marcarem a cadência a todos os instrumentos! Um a um! Qual narrador no meio dos diálogos a dar sentido a um texto! A impor o ritmo à falta de um maestro! Palavra, que até chego a ouvir uma banda inteira, comigo na precursão, com os bombos e os pratos! E como o coração pula e a cabeça entontece com o batimento das maçanetas. Eu no meio doutros músicos a dispensar, por mim, qualquer voz! Só instrumentais! Mas a não poder-se dispensá-la, que fosse uma voz a cantar para ninguém! A timbrar, a gemer, a desfalecer, a suspirar apenas para si. A chorar ou a gritar para um deserto… 
Uma voz a libertá-la do que a acorrenta! Como o faz qualquer motor de uma mota quando acelera! E por que, diabo, não nasci com cabeça, tronco, membros e uma mota de alta cilindrada? Uma Honda, Suzuki, Kawasaki, ou Yamaha para voar pelo asfalto? E poder, enfim, tornar-me, a cada verão, num nómada solitário mais rápido! Parando apenas em função dos meus gostos e apelos momentâneos… E que me perdoe o Citro, um papa-quilómetros a deixá-lo vergonhosamente para trás!

Eu nascido com uma mota entre as virilhas, e bem firme nas minhas mãos! A buzinar pelo ar fora sempre que me apeteça! A avançar a todo o gás! Sem ler os limites de velocidade obrigatórios que tenho sempre pressa! E, demais a mais, que querem, quando já paguei a carta de condução falsificada e sou por excelência um analfabeto?

Eu, um baterista como há poucos e com uma mota! Ainda me levo a sério! E com a memória de ti, atrás de mim, os teus braços anelados à minha cintura! Caso fosse possível fazer marcha atrás no tempo, até chegar a namorar-te outra vez! E tu comigo! Estás a ver-nos pelo Tejo acima? Tu, com um baterista e um motar, na mesma pessoa. Dois num só! Qual santíssima trindade, o tanas! Mas um par! E que bonito era! Havias de ver!





                                        Lumiar, Lisboa, 4 de fevereiro, 2017

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Prato da Ordem Militar de Santiago



Não se trata de um restauro, mas da  réplica de um prato em louça comum, modelado a partir de raros fragmentos pessoalmente recolhidos na vertente Sul do Castelo de Palmela.

Facilmente identificado com a insígnia da Ordem Militar de Santiago, e apesar da preocupação de produzir a peça de acordo com as dimensões próprias, não se garante o cumprimento rigoroso desse desígnio.

Por último, o exemplar em causa (objeto de oferta e com a numeração zero inscrita na sua base), foi dado a executar  em Março de 1988 às mãos de uma artesã da região de Palmela, cujo nome não se tem presente.



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

E FAÇA EU BOA VIAGEM



Balanço entre ir ou não! E, se for, quando? Para o mês que vem? Amanhã? Mas porque não já? O quase paralítico do meu vizinho  defronte, ainda está para assomar à janela e ficar a ver o dia  a passar pela rua, sem trazer nada de novo! E eu aqui, como a olhar para um ecrã vazio à espera da projeção tardia de um filme! Como irrita! Mas quando é que me decido a fazer as malas, quando? E quais malas, se tudo quanto preciso é de encher um saco com roupa, umas tralhas, e pôr-me na alheta… 




Entretanto, o Citro, estacionado lá em baixo, parece ter acabado de revirar as óticas para o vão da minha janela no segundo andar.  Só me falta ver o porta-bagagens a abrir-se, e eu à volta dele! O pior é, ao continuar a ver-me na rua, nunca mais sair...  Apesar de não terem sido poucas as viagens que tenho empreendido dentro de casa. Para tal, basta distrair-me! Sonhar com um sonho, e lá vou eu adiante!... Raras vezes por caminhos que já conheço, mas por outros, que pouca ideia faço como sejam! O meu interesse particular pelo ignoto futuro a sobrepor-se  ao meu passado déja vu! Nada a fazer. Fiz-me assim, e não posso voltar para trás!


Por um instante, olho para a manhã que cai, suave, roçando a frontaria dos prédios, refrescando-me a cabeça reclinada para o passeio, lá em baixo... Sim, a rua está cheia da manhã! E eis que o meu vizinho do outro lado, faz a sua aparição. É um relógio. Não de cuco! Mas de um aceno imediato, dirigido a mim que, como um tiro, atravessa a largura da rua, obrigando-me com algum esforço, a devolver-lhe a saudação. Sorri, e sorrio como quem mete uma moeda numa máquina da sorte e não sai nada. Porque logo depois, o que cada um faz, é olhar: ele para o lado poente da rua; eu, ora para nascente, ora para o céu, cada vez mais luminoso e sem uma nuvem.  

Nenhuma dúvida! Espera-se bom tempo, e não seria má ideia que desse um empurrão em mim próprio, fosse fazer o saco, e daqui a uma hora estivesse a rodar a chave da ignição do Citro que, nesta altura, mantém os faróis orientados na direção da porta do meu prédio, com ar - imagino -  de quem perdeu alguma guerra. Sim, o cinzento não lhe cai nada bem. Desde o primeiro momento em que o trouxe, novo, em folha,  do stande. Seja em que estação do ano for, o cinzento é uma cor que me leva sempre a pensar em como beneficiaria ser alterada para outro tom!




Mas que raio! Onde é que eu pus as  t-shirts    do lobo estampado, a uivar enganosamente à lua cheia e a da árvore solitária everdescendo no meio do deserto? Ora, ali estão: na corda bamba da roupa da varanda de trás, juntamente com não sei quantos pares de peúgas; umas calças de ganga, o blusão a que não faltam bolsos, sequer em cima dos ombros… Quase toda a roupa que preciso para encher o saco, como bandeiras desfraldadas ao vento num dia de festa de um lugar campónio, a que não falta sequer  um par de ténis já enxutos! E quem sabe se um dia não virei mesmo a pendurar no arame da roupa o par de óculos de sol, bastando para tal deixar-me enlouquecer! 


E do que mais preciso? O estojo da higiene, o telelé desligado, uns enlatados, as indispensáveis pastilhas rennie, não posso esquecer o corta-unhas e a faca de mato, um objeto chama outro; um bloco de notas, quero lá saber da máquina fotográfica e dos binóculos; o cartão multibanco, o michelin,  os documentos, ah!, o teu retrato tirado há quantos anos atrás, sim,  tu, emoldurada num passepartout, mas virada do avesso, para evitar a tentação de te fitar a toda a hora; tu, sempre tu, com a blusa de seda, cor de rosa, que te ofereci… E, por fim, a tenda de campismo encaixotada no fundo da despensa…  Já não volto atrás. Vou partir mesmo, e quanto antes.


Mal ponho o pé na rua, arrastando a bagagem, logo os faróis dianteiros do Citro, parecem pestanejar, brilhando como se tivessem acabado de ser esfregados com um limpa vidros. E poderia quebrar, agora, o hábito de me limitar apenas a acenar ao velho a partir da janela, saudando-o com um sonoro bom dia, aqui, da rua  Mas nunca tendo cumprimentado até hoje nenhum vizinho, salvo a Alice do quinto esquerdo, não quero criar nenhuma exceção. Sim. Bastou-me olhá-lo de soslaio, para imaginar o velho, a morder-se de curiosidade em saber para onde vou…


Mas pode lá ser! De repente, de uma ponta à outra da rua, rara é a soleira da porta, peitoril de janela ou varanda em que não surpreenda um vizinho, quase sempre reformado ou no desemprego, deixando escapar uns calorosos bravos, vivas e berros esfuziantes, à minha iminente partida!


Uma espontânea e inusitada celebração festiva, sem estampidos de foguetes, é certo, fanfarra de bombeiros, desfile hípico ou de ranchos folclóricos, mas a que não faltam as timbradas variações sopradas pelo clarinete do filho do farmacêutico, que deve ter faltado às aulas, bem como nuvens e nuvens multicolores de pétalas de flores, chuva de confetis, e feéricas serpentinas; e muitos, imensos balões de s. joão pelo ar, criando uma certa confusão entre os pombos implantados nos beirais, não menos apreensivos quanto eu, face a tão  transbordante euforia, rompendo com a costumaz pasmaceira da rua... 

E quem, afinal, poderia estar mais à altura do que eu de tamanho regozijo? Só visto: eu apeado no meio do asfalto, a agradecer, curvado como um chinês, a avalanche das gritadas ovações que quase me subterram, tais como:" põe-te a milhas e não voltes"; "já devias lá estar"; e " olha se te acontece como ao outro que!..." E agora, com a maior franqueza: fosse vaidoso, e babava-me; fosse de chorar por dá cá aquela palha e, em pouco tempo, haveria de tornar o leito seco desta rua num impetuoso curso de água! Só contando com as minhas lágrimas! Mais nada!


E é ao cabo de agitados e sentidos adeuses que, por fim, me decido a entrar no citro,  acelerar a fundo em ponto morto, por forma a provocar  aquele estridente brum, brrum, brrrum, tão próprio  dos bólides de alta competição, prestes a largarem da linha de partida! Brum, brrum, brrrum, como se o motor, a todo o instante, pudesse escapulir-se pelo tubo de escape; Brum, brrum, brrrum, à tão esfuziante e inesperada receção dos meus vizinhos; brum, brrum, brrrum,  ás sardinheiras vermelhas da minha varanda, que me  regalam e arregalam os olhos da alma; brum, brrum, brrrum, á menina do balcão do cabeleireiro, que ainda não a vi hoje; brum, brrum, brrrum, à sorte grande deste banho de alegria a cair-me em cima.


E é assim que, de seguida, me deixo rolar, brandamente, ao volante do Citro até atingir o cruzamento, onde travo para olhar pelo retrovisor. E o que entrevejo? Não a rua de há instantes, plenamente animada de vivas, ovações e gritos; daquele esfuziante movimento, de gente e mais gente, mas antes o lugar de estar tudo  invariavelmente na mesma, como quando a surpreendo quer ao entrar, quer ao sair de casa, sem que haja alguém a perguntar-me, então como vai!... 


Ora, eu estou sempre bem, obrigado! E melhor ainda, ao pensar no dia que fará à tarde: quente como eu gosto, e longe da rua onde moro, com aquele subdesenvolvido canteiro, um arbusto só regado pelas chuvas, sem ter florido uma só vez; e uma série de candeeiros que nunca me deu para contar, mesmo quando à janela, nada me ocorre sobre o que possa fazer...


Enfim, a minha rua de sempre, deixada já para trás, ponto final, cai o pano, adeus!... E faça eu boa viagem!

                                                        
                                                                                      Lisboa, Lumiar, Novembro,2016

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O Sol no Teto

 Na Medina de Fez

Canso os pés
Na pedra da calçada
As mãos no saibro 
De uma esquina


Arrasto um fardo
De terra preso
Ao fundo da boca

Coso e remendo
As minhas sílabas
Que são tantas 
Quantos os poros
Do meu corpo

Prolongo-me no braço
A quem peço

Que me compre
Que me venda
Que me troque

Uma moeda
O olhar
De uma palavra
  



Alto Atlas

Esforço de dentes e raiva
Ante a dimensão da paisagem

E calar
Ter pronta a saliva
E não morder

Sentir apenas
O tato leve 
Da semente

A forma

Nunca a síntese

Sempre



Aldeia a Sul

A prumo
A tua voz cai
No arco da duna

Uma raiz
Uma lágrima
Um poço

Perto
A porta aberta
Duma casa



Searas de Casablanca

Caminho de seara
No meio azul da pedra

Caminho de trigo
Que é o meu

A tempestade
Não governa a fome

A ordem da cidade
Não me cala a boca

Amanhã
Hei de falar com o sol
Dentro de casa




Direi que a FUGA fica ao sul onde mora a
memória e que o percurso das sílabas 
não é fácil. Direi que, uma vez chegados
à ultima fronteira do texto, perdemos
para sempre o vago conceito de limite.
A partir daí é o excesso.

In " O Sol no Teto", 1984 - Desenhos de Pissarra Luís

Coisas para meter medo aos pássaros



Uns eram moços sadios. Outros, já adultos, um pouco "loucos", mas ainda com tino bastante para afugentarem os pardais que vinham  ao grão dos lavradores.

Então, corriam de braços abertos, apanhando aqui e ali pedras do chão que logo arremessavam contra os intrusos, aos gritos como numa zanga a sério, enquanto os chocalhos, amarrados à cintura, a par de outros penduricalhos de ferro ou latão, se faziam ouvir em redor.
 
Espanta-pássaros de carne e osso, está visto, que  procuravam evitar a rapinagem do pão nas searas do Alentejo, e  que apenas são relembrados por alguns velhos… 

Hoje, contam-se os espantalhos que restam nas hortas e pomares, não passando de uns esqueletos quase sempre masculinos, envoltos em palha e trapos velhos, almofadados com uma blusa, camisola, algum casacão esburacado. 

Quando não se restringem à configuração de meras silhuetas humanas, recortadas á serra numa tábua de madeira, ou esculpidas a partir de um espesso e leve bloco de esferovite.

Sim, porque um único ramo implantado na terra, donde se suspende uma saia rota, um colorido saco de plástico, ou o testo de uma panela, não pode ser tomado como um verdadeiro espantalho, apesar de, à mais ligeira deslocação do ar, a pendureza se agitar, provocar ruído, soar a alarme….
 
Quanto a mim, estes simples engenhos mais não são do que meros símbolos hasteados, significando qualquer linguagem obscura, instrumentos mágicos contra o mau olhado; expedientes usados para fazerem recair sobre alguém uma maldição, um mau feitiço, não sei!...

Mas para o Zé da Bica, que trabalha numa oficina de mecânica de automóveis, e aos fins de semana cuida de uma pequena parcela de terra na região saloia, não lhe resta qualquer dúvida:

" sejam o que forem,  são coisas para meter medo aos pássaros! "


 in Notícias Magazine, Novembro,1998 ( texto e fotos do autor)