quinta-feira, 27 de julho de 2017
Sem Trincheiras
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Diz se me ouves!
água mar
água mar
mar água
mar água
água mar terra
terra mar água
Escuto!
( Na senda de UM dos estilos poemáticos dos anos 50, 60 e....)
Guiné-Bissau, Anos 60
Carrossel
É o crime dentro do vício
O remo dentro da barca
A gema dentro do ovo
A graxa dentro da lata
É o riso dentro do povo
A bala dentro do cano
A merda dentro da tripa
A barba dentro da sopa
É o pó dentro da arca
A vigília dentro da cela
A faca dentro do bolso
A alcova dentro da noite
É o gozo dentro da cama
É o gozo dentro da cama
O vivo dentro do morto
A dança dentro da farra
O velho dentro do novo
É o bicho dentro do fruto
É o bicho dentro do fruto
O rato dentro do esgoto
O frio dentro do gelo
O cio dentro do corpo
Lisboa, Maio,1980
POEMATOS ( 1 )
1
O zumbido da abelha à minha volta
Crava o ferrão ou não?
Os latidos dos cães soltos
E acorrentados nos quintais.
Trazem raiva, mordem ou não?
E eu, de novo, na minha infância
Reencontrada neste verão
Ainda morro hoje ou não?
O zumbido da abelha à minha volta
Crava o ferrão ou não?
Os latidos dos cães soltos
E acorrentados nos quintais.
Trazem raiva, mordem ou não?
E eu, de novo, na minha infância
Reencontrada neste verão
Ainda morro hoje ou não?
Lisboa, 4 de agosto,2016
terça-feira, 11 de julho de 2017
O Assobio
Sempre
que ela virava costas e saía do quarto, ouvia-lhe um ligeiro assobio. Mas só ao
cabo de algum tempo veio a perceber que eram as dobradiças da porta a pedirem
um fio de óleo.
Parque Expo, Fevereiro, 2017
sexta-feira, 26 de maio de 2017
CRÓNICAS DO TEJO ( TRINTA E DOIS)
Como se fosse um suspiro da terra.
Quando é que me vi a prestar tanta atenção às bermas? Tão cauteloso com as curvas mais acentuadas? A fazer um manguito à aceleração nas retas?
Será que temo o risco de
voar para fora de estrada? Só me falta cair na condução do velho que passa pela
minha rua, com a visão turbada pelas cataratas e já um pouco tremente. Ou então
tudo isto não passa de um certo cansaço e sonolência, nada vulgares para um
papa quilómetros como eu, causados pela febre do ar ainda quente. E se a febre
for antes minha? Já sei! Todo este abrandamento a nada mais se deve do que à
reaparição do tempo a retardar o movimento do Citro! Senão mesmo ao intuito de
congelar o seu avanço num embate contra o grosso tronco de uma árvore, um muro,
a fachada de uma casa… E, por efeito disso, a paralisar-me de vez a ação para
qualquer gesto futuro. O tempo, qual ventosa a exercer a sua sucção sobre mim,
a sorver-me o sangue até ao tutano, tomando a dianteira, sim,
ultrapassando-me!
Pois
então, e em breve, deixar-me-ei ficar por Vila Velha de Ródão, que não estou
para ressentimentos frustrantes de vencido nesta tão velha disputa contra o
tempo. Mas desta vez, sem beber as estrelas por copos de cerveja à beira Tejo, e
antes a pernoitar na moradia da Lídia, que nem um náufrago por uma boia, bem
precisado estou de um banho e de uma
cama!
E
é um segundo após o toque á campainha, que vejo a Lídia assomar por entre os caixilhos da
porta, como a figura de uma antiga madona, emoldurada numa tela. Só pode ter-me
surpreendido através dos cortinados a estacionar no passeio!
Apesar
de há muito fazer da sua residência um ponto de atracagem para uma, duas
dormidas, a verdade é que as minhas reaparições, sem aviso prévio, nunca são assinaladas
com declaradas euforias. Ao contrário, muito contidos, nenhum de nós ensaia um
passo para além da fronteira das perguntas e respostas convencionais, que
nada acrescentam ao conhecimento de qualquer de um de nós sobre o outro:
Por
aqui? É verdade! De viagem? É como vê! E como está? Vai-se indo? E quantos dias
espera ficar por cá? Só até amanhã. E a sua filha ainda se mantém no ensino?
Saiu? Então fez como eu! É a vida. É a vida! E o seu quarto já está prontinho
para si!
E
assim completa a Lídia o que tem para dizer, entregando-me a chave e eu a importância
da dormida, que logo depõe no bolso
do avental de peito que trás sempre em casa.
E
agora, rápido para o balsâmico banho debaixo da catarata do chuveiro. Da espuma
do sabonete a arder-me os olhos; da pressão da água a arrastar para o ralo todo
o pó acumulado nas etapas de hoje! Pena é não poder igualmente lavar as marcas
das unhas tatuadas na minha pele pelo tempo? Eu sei, eu sei… Paciência! A água
não lava tudo!
Entretanto,
é só enxugar-me; passar o pente pelo cabelo, revendo os traços faciais da mãe, esculpidos
na minha cara refletida no espelho. Que toda a família dizia eu sair a ela! E,
finalmente, percorrer, a passo silencioso mas apressado, o corredor que conduz
ao quarto, imerso no lusco-fusco, a não dispensar, dentro em breve, a
iluminação do candeeiro suspenso do teto.
E
o que falta para deixar-me abater, quanto antes, pelo torpor anestesiante do
sono? Ora, nada. Mas qual quê?! Que tic-tac é este a irradiar-se pelos nervos?
Só pode ser o que provém da repetida e sincopada dança pendular do relógio de
parede! Então, levanto-me para o calar de vez, extraindo-lhe as pilhas que animam
o mecanismo. Mas o suspiro de alívio morre à nascença que, num ápice, dou conta
de um outro imparável tic-tac, menos alto que o primeiro, mas igualmente
irritativo. Está visto! É do despertador em cima da mesinha de cabeceira. Pudesse
utilizá-lo para tiro ao alvo! Ou entalá-lo num torno mecânico. Reduzi-lo a pura
chapa metálica! Seja como for, há que submeter este relógio à mesma operação do
primeiro: calá-lo!
Porém,
ante a ameaça do meu descanso vir a ser violentado pelo mais ligeiro ruído,
sinto-me um pouco alterado, ansioso, inquieto! Um enervamento que cresce mais
ainda, ao reparar como os próprios objetos mudos se fazem ouvir pelo quarto. Não
digo todos, mas alguns. A exemplo disso, o querubim bochechudo, em porcelana, a
voar que nem uma pomba, rente à cómoda de pinho; a matrona de pano, tão
flácida, espreguiçada no sofá, como se estivesse deitada na areia da praia, a
refrescar, onda a onda, os pés…
Mas
não são, afinal, os objetos que me falam. O que ouço é antes a mim mesmo. Como aquele
cachorro malhado de orelhas cabisbaixas, supostamente preservado pela Lídia, em
memória do marido que fora caçador havendo-a deixado na condição de viúva
prematura.
Sim!
Eu é que sou, na verdade, o único que se exprime, trocando contra vontade as
minhas vozes pelo silêncio retemperador do sono… Ah, não me encontrasse, de
momento, tão agitado, e mais ainda, ao deparar com a visão de cristo
crucificado na parede, ao fundo da cama!
A cena do martírio milenar atravessado
como um espinho na carne desde a infância é que não!
Antes
um cartaz de Guevara a puxar umas fumaças do charuto; da Marilyn com o vestido
a fazer de largo abat jour; de Luther
King ou da Rosa Luxemburgo; de Hitchcock, ou de Bakunin…
Preferíveis estes ícones
ao mártir que, cuidadosamente, retiro da parede para o acamar dentro de um dos
gavetões da cómoda. E
será a partir de agora que vou poder, sem mais delongas, abandonar-me à cama
como quem se aninha numa nuvem flutuante de algodão doce?
Não
sei porquê, mas a manhã que nasce tem qualquer coisa a ver com o momento de
chegada ao quarto… É
certo que a noite aluarada foi-se, desaparecendo o rasto das estrelas… No
entanto, há uma réstia de bafo seco, que parece preservar-se ainda desde o fim
da tarde de ontem… Como o perfume da laranjeira em flor, embora mais suave,
plantada tão perto da janela…
Inalo-o
como se fosse um suspiro da terra. Possa tonificar-me para o trajeto que espero
empreender, após o pequeno-almoço tomado no café defronte da moradia da Lídia. Mas
não sem antes fixar mais demoradamente as rosas, e alegrar-me, um minuto que
seja, com os cães agitados, saudando-me à janela; e achar graça às galinhas cacarejantes
a esgravatarem a terra.
Até
me decidir, finalmente, por abandonar o aposento e descobrir, quase incrédulo,
o que me passara despercebido: a universalizada imagem do menino da lágrima pregada
na parede da cabeceira da cama! Então
digo: siga, siga, e quanto antes. Não vá o diabo do rapaz começar a verter
lágrimas e lágrimas, inundando o quarto e toda a habitação da Lídia. Senão mesmo a vila inteira!
Mas
onde terei guardado as pilhas, de modo a deixar o compartimento, de novo, cronometrado?
Mesmo vazio!
Lumiar, 25,5,2017
segunda-feira, 15 de maio de 2017
CRÓNICAS DO TEJO ( TRINTA E UM)
O eu que vai, vem igual
Tivesse
dado a volta ao mundo, mas não: o que fiz foi atingir um ponto peninsular demasiado
próximo, numa peregrinação motorizada em alternância com raras e curtas
caminhadas. Sem uma única vez me confrontar com algum risco, o mais pequeno
sobressalto ou desafio inesperado…. Aqui, além, uma outra tensão, sim, mas logo
dissipada, passos ou quilómetros mais adiante.
Quanto
a estados de inquietação, de tão costumeiros, esteja onde estiver, nem vale a
pena procurar contabilizá-los. Também não estou empenhado em olhar para trás, e
inventariar a frequência e a amplitude das emoções sentidas no decurso do meu
episódico nomadismo errante pelo Tejo acima.
Sei
é que ao aguardar pelo pequeno-almoço numa esplanada às moscas, em Frias de
Albarracim, o que me domina é antes uma sensação de perda. Como a causada pelo derrube
involuntário de uma peça de estimação desfeita em cacos. Ou uma impressão semelhante
à suscitada pelo sumiço de um poema acabado de escrever num papel solto, que
uma repentina e, bem distante já, revoada de vento levou para bem longe…
Certo é que, sem querer ainda equacionar o retorno, não vejo como contornar essa inevitabilidade. Ou não saiba de antemão que, mal me faça à estrada, logo dê por mim a puxar pelo motor numa imparável correria por quilómetros a fio! Sim, como se, a partir de agora, deixasse de haver mais Tejo!
Quem se terá evaporado, ao que presumo, foi o empregado de mesa ao esquecer ou ignorar o pedido do meu pequeno-almoço! E a ser assim, porque espero?
Certo é que, sem querer ainda equacionar o retorno, não vejo como contornar essa inevitabilidade. Ou não saiba de antemão que, mal me faça à estrada, logo dê por mim a puxar pelo motor numa imparável correria por quilómetros a fio! Sim, como se, a partir de agora, deixasse de haver mais Tejo!
Quem se terá evaporado, ao que presumo, foi o empregado de mesa ao esquecer ou ignorar o pedido do meu pequeno-almoço! E a ser assim, porque espero?
Pois
bem, uma aceleração que não se esgota no abreviar da duração do regresso, mas no
prazer que me causa a velocidade em si. E ainda num continuado sentimento de evasão,
tão próprio ao presidiário perseguido numa fuga. Mas, no meu caso, uma evasão a
quê? Ora, ao tempo! Esse implacável colonizador de todos as coisas, seres e
cantos do mundo, não fixável em calendário algum, invisível no mínimo grão a
passar numa ampulheta, de uma âmbula para outra…
O tempo, que pressinto a todo instante, em cada
neurónio, ruga, sinal de pele, gota de suor, fluir sanguíneo…. Que me pesa nas
pálpebras e me irriga o pulmão, com este cheiro emanado de uma geografia exterior
ao quotidiano da minha vida.
Tempo oscilante, que ora me agita em sonhos, ora me esmorece em taciturnos e desalentados pensamentos… O que torna as idades emolduradas dos meus pais em cima da minha cómoda, cada vez mais novas em relação á minha. E a tua idade, rapariga-mulher dentro do porta-luvas do Citro, cristalizada ilusoriamente para sempre.
Tempo oscilante, que ora me agita em sonhos, ora me esmorece em taciturnos e desalentados pensamentos… O que torna as idades emolduradas dos meus pais em cima da minha cómoda, cada vez mais novas em relação á minha. E a tua idade, rapariga-mulher dentro do porta-luvas do Citro, cristalizada ilusoriamente para sempre.
Entretanto,
ao deixar Albarracim, nada me dispõe a fazer uma segunda viagem da descoberta
do Tejo. Nem pensar! Que chegar até aqui foi uma coisa; voltar ao ponto inicial
da partida, outra. Daqui para a frente, não se trata de repetir o filme, mas
sim da rendição incondicional à irreversibilidade do retorno! Acabou! Arrumar o livro na prateleira depois de lido,
eis o que se impõe. E só voltar, eventualmente, a abri-lo apenas para reler o fragmento
da frase sublinhada ou a passagem de um certo capítulo…
Eis
o que farei com um ou outro esparso e subjetivo retalho da curta-metragem deste
passeio, caso dê para isso. De
resto, em nenhuma das minhas andanças, subtraí ou acrescentei nada de
assinalável em mim, ao ponto de perder de vista quem sou. O que sempre me
tenta, desafia, anima, mas também me intimida,
cansa e retrai…
Qual
tatuagem no corpo, nenhuma saída até agora, seja para onde for, apaga o que me
marca! Nem mesmo a mudar de pele ou descarnado de todo, haveria de me sentir
outro! O eu que vai, vem igual. Sem
tirar, nem pôr. Para perto ou longe. Quer faça de cão à solta ou preso à trela;
de ovelha indefesa ou de quimérico lobo mau; de palhaço a rir, aplaudido pelo público
ou a chorar a sós consigo, na
intimidade de um camarim vazio…
Em
uma única vadiagem fui tocado por qualquer varinha mágica que fizesse de mim um
homem novo! Nunca! Salvo, talvez, no momento em que me estreei, como um ator em
palco, pelas velhas ruas de Toledo, com um chapéu na cabeça!…
E
agora? Para que procurar saber as horas, quando sinto a pressão do tempo a
impelir-me a arrancar de vez, e este persistente trinado do que julgo serem
cigarras, começar a deixar-me ligeiramente atordoado.
Ou
será da floração das resinosas e frágeis estevas? Do cheiro intenso à urze? Deste arpejo choroso da muito ligeira brisa por entre
as agulhas dos pinheiros, que me soa ao crepitar da água do Tejo a roçar pelas
margens…
Sim,
acaso não arranque neste instante, não só
adio o momento presente, como a possibilidade de chegar hoje mais longe… E nada
importa saber quantas etapas tenho pela
frente. Em que instante paro e onde chegarei. Assim, para diante e já! Até ao
alcance de um limite imposto pela fome, a fadiga, o estado de espírito, o
avanço do dia… Em demanda de outros horizontes, cenários, destinos rodados pela
estrada, e que uma vez projetados incessantemente na tela do para-brisas, mal
chegam a alojar-se na retina…
E
vê tu, tempo, quanto acelero sem um único arfar, ai de dor, suor de frio, sufoco
de calor! Como se acabasse de me furtar às tuas garras, sem deixar qualquer
sinal do meu rasto.
Qual
presa bem capaz de ludibriar o predador, desencorajando-o a persegui-lo mais.
Lisboa, 15 de
maio, 2017
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