domingo, 30 de julho de 2017

Indagação



Pergunta de certo oficial, recém-chegado de Bissau ao aquartelamento de Piche, que fora na véspera alvo de uma grave flagelação:
Então, rapaz, diz-me como ficou o depósito de géneros?
Não faço ideia, meu major. Sei é que o vagomestre levou um tiro nos cornos!                                                                      
                                                                          Lisboa, fevereiro, 1980

* Qualquer semelhança com o real dos anos 60 é pura coincidência…




sábado, 29 de julho de 2017

Os Gatos Pretos, Brancos e Amarelos

Texto dedicado ao meu amigo Luís Graça




De tão densa a floresta, mal o sol penetra. Escura como a galeria funda de uma mina. Húmida e lúgubre, por vezes, apavora!
E que dizer dos ramos e mais ramos espinhosos que nos rasgam a pele? Das ardilosas covas abertas, pelas quais se pode desaparecer para sempre? Das ciladas dos animais? Sobretudo dos gatos brancos, pretos e amarelos que, eriçados, soltam mios e mostram as garras, quando não se ocultam atrás dos troncos, das pedras e da folhagem. Os que nunca se abstêm de espiar, tanto os nossos gestos, como as nossas falas caladas.
Mesmo assim, não desistimos de cantarolar uma letra infantil que conta a história de um cão felpudo e sem abrigo, abandonado pelo seu dono por um amor havido a uma mulher… E enquanto os mochos, nas copas das árvores, piam, piam incansavelmente, lembrando viúvas a chorar, nós continuamos adiante, sem evitar os espinhos mais agudos, que nos deixam a sangrar. Mas por muito exânimes, voltamos a repetir cada vez mais alto a cantilena, onde entra a história do cão abandonado… sem que alguma vez os gatos pretos, brancos e amarelos nos percam de vista e, eriçados, mostrem as garras e espiem, espiem….
Apenas a memória do sol nos ilumina um pouco. A estrela que ainda mantém as suas marcas no nosso corpo, sobretudo nas mãos humedecidas, a fecharem-se e a abrirem-se, instintivamente, detendo e largando as ambições de outrora….
Só bem mais tarde, a inesperada clareira de um extenso lago, acaba por nos obrigar a interromper a marcha. E é, então, aí que os gatos  pretos, brancos e amarelos, quais guardiões do fogo do inferno, logo se dispõem em volta, tornando impossível romper com aquele anel odioso de felinos! Apenas nos resta a oportunidade de matar a sede e quase fazer ruir o céu, ao cantarmos, de novo, a história aprendida na nossa infância.
Impensável é que, nesse instante, os gatos pretos, brancos  e amarelos, fossem levados a distender as patas dianteiras, recolher as garras, inclinar as cabeças redondas, deixando-se, por fim, adormecer…
                         Quartel de Penafiel, 24- 10 - 1968







quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sem Trincheiras


1  2
      1  2
             2  1
                  2  1
                        1  2  3
                                  3  2  1
                                            Diz se me ouves!
água  mar
            água  mar
                           mar  água
                                       mar água
                                                água  mar  terra
                                                               terra   mar  água
   
                                             Escuto!


( Na senda de UM dos estilos poemáticos dos anos 50, 60 e....)

                                                                                                           Guiné-Bissau, Anos 60


Carrossel


É o crime dentro do vício
O remo dentro da barca
A gema dentro do ovo
A graxa dentro da lata

É o riso dentro do povo
A bala dentro do cano
A merda dentro da tripa
A barba dentro da sopa

É o pó dentro da arca
A vigília dentro da cela
A faca dentro do bolso
A alcova dentro da noite

É o gozo dentro da cama
O vivo dentro do morto
A dança dentro da farra
O velho dentro do novo 

É o bicho dentro do fruto
O rato dentro do esgoto
O frio dentro do gelo
O cio dentro do corpo


                                                                                            
                                                                                                          Lisboa, Maio,1980

POEMATOS ( 1 )

1


O zumbido da abelha à minha volta
Crava o ferrão ou não?
Os latidos dos cães soltos
E acorrentados nos quintais.
Trazem raiva, mordem ou não?
E eu, de novo, na minha infância
Reencontrada neste verão
Ainda morro hoje ou não?

                                                                       Lisboa, 4 de agosto,2016

terça-feira, 11 de julho de 2017

O Assobio




Sempre que ela virava costas e saía do quarto, ouvia-lhe um ligeiro assobio. Mas só ao cabo de algum tempo veio a perceber que eram as dobradiças da porta a pedirem um fio de óleo.
                                                                            Parque Expo, Fevereiro, 2017

sexta-feira, 26 de maio de 2017

CRÓNICAS DO TEJO ( TRINTA E DOIS)



Como se fosse um suspiro da terra.


Quando é que me vi a prestar tanta atenção às bermas? Tão cauteloso com as curvas mais acentuadas? A fazer um manguito à aceleração nas retas?
Será que temo o risco de voar para fora de estrada? Só me falta cair na condução do velho que passa pela minha rua, com a visão turbada pelas cataratas e já um pouco tremente. Ou então tudo isto não passa de um certo cansaço e sonolência, nada vulgares para um papa quilómetros como eu, causados pela febre do ar ainda quente. E se a febre for antes minha? Já sei! Todo este abrandamento a nada mais se deve do que à reaparição do tempo a retardar o movimento do Citro! Senão mesmo ao intuito de congelar o seu avanço num embate contra o grosso tronco de uma árvore, um muro, a fachada de uma casa… E, por efeito disso, a paralisar-me de vez a ação para qualquer gesto futuro. O tempo, qual ventosa a exercer a sua sucção sobre mim, a sorver-me o sangue até ao tutano, tomando a dianteira, sim, ultrapassando-me! 

Pois então, e em breve, deixar-me-ei ficar por Vila Velha de Ródão, que não estou para ressentimentos frustrantes de vencido nesta tão velha disputa contra o tempo. Mas desta vez, sem beber as estrelas por copos de cerveja à beira Tejo, e antes a pernoitar na moradia da Lídia, que nem um náufrago por uma boia, bem precisado estou de um banho e de uma cama!

E é um segundo após o toque á campainha, que  vejo a Lídia assomar por entre os caixilhos da porta, como a figura de uma antiga madona, emoldurada numa tela. Só pode ter-me surpreendido através dos cortinados a estacionar no passeio!

Apesar de há muito fazer da sua residência um ponto de atracagem para uma, duas dormidas, a verdade é que as minhas reaparições, sem aviso prévio, nunca são assinaladas com declaradas euforias. Ao contrário, muito contidos, nenhum de nós ensaia um passo para além da fronteira das perguntas e respostas convencionais, que nada acrescentam ao conhecimento de qualquer de um de nós sobre o outro:

Por aqui? É verdade! De viagem? É como vê! E como está? Vai-se indo? E quantos dias espera ficar por cá? Só até amanhã. E a sua filha ainda se mantém no ensino? Saiu? Então fez como eu! É a vida. É a vida! E o seu quarto já está prontinho para si!


E assim completa a Lídia o que tem para dizer, entregando-me a chave e eu a importância da dormida, que logo depõe no bolso do avental de peito que trás sempre em casa.

E agora, rápido para o balsâmico banho debaixo da catarata do chuveiro. Da espuma do sabonete a arder-me os olhos; da pressão da água a arrastar para o ralo todo o pó acumulado nas etapas de hoje! Pena é não poder igualmente lavar as marcas das unhas tatuadas na minha pele pelo tempo? Eu sei, eu sei… Paciência! A água não lava tudo!

Entretanto, é só enxugar-me; passar o pente pelo cabelo, revendo os traços faciais da mãe, esculpidos na minha cara refletida no espelho. Que toda a família dizia eu sair a ela! E, finalmente, percorrer, a passo silencioso mas apressado, o corredor que conduz ao quarto, imerso no lusco-fusco, a não dispensar, dentro em breve, a iluminação do candeeiro suspenso do teto.

E o que falta para deixar-me abater, quanto antes, pelo torpor anestesiante do sono? Ora, nada. Mas qual quê?! Que tic-tac é este a irradiar-se pelos nervos? Só pode ser o que provém da repetida e sincopada dança pendular do relógio de parede! Então, levanto-me para o calar de vez, extraindo-lhe as pilhas que animam o mecanismo. Mas o suspiro de alívio morre à nascença que, num ápice, dou conta de um outro imparável tic-tac, menos alto que o primeiro, mas igualmente irritativo. Está visto! É do despertador em cima da mesinha de cabeceira. Pudesse utilizá-lo para tiro ao alvo! Ou entalá-lo num torno mecânico. Reduzi-lo a pura chapa metálica! Seja como for, há que submeter este relógio à mesma operação do primeiro: calá-lo!

Porém, ante a ameaça do meu descanso vir a ser violentado pelo mais ligeiro ruído, sinto-me um pouco alterado, ansioso, inquieto! Um enervamento que cresce mais ainda, ao reparar como os próprios objetos mudos se fazem ouvir pelo quarto. Não digo todos, mas alguns. A exemplo disso, o querubim bochechudo, em porcelana, a voar que nem uma pomba, rente à cómoda de pinho; a matrona de pano, tão flácida, espreguiçada no sofá, como se estivesse deitada na areia da praia, a refrescar, onda a onda, os pés…

Mas não são, afinal, os objetos que me falam. O que ouço é antes a mim mesmo. Como aquele cachorro malhado de orelhas cabisbaixas, supostamente preservado pela Lídia, em memória do marido que fora caçador havendo-a deixado na condição de viúva prematura.

Sim! Eu é que sou, na verdade, o único que se exprime, trocando contra vontade as minhas vozes pelo silêncio retemperador do sono… Ah, não me encontrasse, de momento, tão agitado, e mais ainda, ao deparar com a visão de cristo crucificado  na parede, ao fundo da cama! A cena do martírio milenar atravessado como um espinho na carne desde a infância é que não!

Antes um cartaz de Guevara a puxar umas fumaças do charuto; da Marilyn com o vestido a fazer de largo abat jour; de Luther King ou da Rosa Luxemburgo; de Hitchcock, ou de Bakunin… 
Preferíveis estes ícones ao mártir que, cuidadosamente, retiro da parede para o acamar dentro de um dos gavetões da cómoda. E será a partir de agora que vou poder, sem mais delongas, abandonar-me à cama como quem se aninha numa nuvem flutuante de algodão doce?


Não sei porquê, mas a manhã que nasce tem qualquer coisa a ver com o momento de chegada ao quarto… É certo que a noite aluarada foi-se, desaparecendo o rasto das estrelas… No entanto, há uma réstia de bafo seco, que parece preservar-se ainda desde o fim da tarde de ontem… Como o perfume da laranjeira em flor, embora mais suave, plantada tão perto da janela…

Inalo-o como se fosse um suspiro da terra. Possa tonificar-me para o trajeto que espero empreender, após o pequeno-almoço tomado no café defronte da moradia da Lídia. Mas não sem antes fixar mais demoradamente as rosas, e alegrar-me, um minuto que seja, com os cães agitados, saudando-me à janela; e achar graça às galinhas cacarejantes a esgravatarem a terra.

Até me decidir, finalmente, por abandonar o aposento e descobrir, quase incrédulo, o que me passara despercebido: a universalizada imagem do menino da lágrima pregada na parede da cabeceira da cama! Então digo: siga, siga, e quanto antes. Não vá o diabo do rapaz começar a verter lágrimas e lágrimas, inundando o quarto e toda a habitação da Lídia. Senão mesmo a vila inteira!

Mas onde terei guardado as pilhas, de modo a deixar o compartimento, de novo, cronometrado? Mesmo vazio!

                                                                                    Lumiar, 25,5,2017