segunda-feira, 7 de agosto de 2017

ESTORIETAS ( 2 )



Meinke Paay

Pela ocasião do falecimento do marido, a senhora Meinke Paay, solicitou aos parentes e amigos para dispensarem não só as flores, mas também as lágrimas durante o ato fúnebre.
A verdade, é que apenas um pequeno ramo de tulipas vermelhas acompanhado por um cartão, com uma assinatura de todo ilegível, foi deixado no velório. Quanto a lágrimas, sequer uma, bem como o mais ligeiro soluço!
Acabado o acompanhamento funéreo, e após as devidas saudações aos presentes, logo a senhora Meinke Paay retomou o caminho de casa para cumprir os procedimentos habituais: regar o canteiro; dar a ração ao seu peludo caniche e tomar o chã, com duas ou três bolachas sem sal e outras tantas colheres de compota de framboesa.
 Porém, mal transpôs a cancela do seu quintal, atónita, deparou com o seu caniche, sem um único sopro de vida, jazendo ao pé das margaridas. Podia lá ser!... E como haveria de conter aquele aflitivo desespero, a dor inconsolável de tamanha perda?
Certo é que volvido tanto tempo, bastará balbuciar o nome do caniche a uma vizinha sua, para que a senhora Meinke Paay logo se apresse a embeber num lenço as gotas de orvalho, que afloram aos seus olhos turvando-lhe a visão.


                                                                                                                            Lisboa, Abril, 2015


ESTORIETAS ( 1 )



O Único Erro

Não conseguia voltar-se para lado nenhum… Como se um colete de forças o tivesse manietado. E tampouco sabia onde estava! Então, como que contrariando a lei da gravidade, levantou a cabeça e soerguendo o peito, não conteve o espanto ao deparar  com a maneta do carro entre as virilhas, as pernas estendidas e os pés espalmados contra a porta do  lugar do morto.
Acabara de acordar no carro, sim, ma a visão que desfrutava sobre o mar , era como se sobrevoasse a partir da cabina de comando dum avião. Mas foi só cá fora, enquanto uma gaivota rasou, grasnando, o tejadilho, é que acabou por medir a distância que separava o para-choques do abismo: um braço! Não mais! Por um triz que ao estacar ali, já de noite, não se despenhara a fuo de prumo naquelas profundezas, de um modo bem diferente do voo planado, esplendoroso, da Telma e da Luísa, ao precipitarem-se num despenhadeiro do Grand Canyon.
Ora, parasse umas milésimas de segundo adiante, e o mundo não haveria de ficar mais pobre! Sem dúvida que ir ao leme envolve menos riscos que ir ao volante. Sempre o dissera. Entretanto, o que se impunha nessa altura, era uma meticulosa observação ao declive e consistência do solo para evitar uma mal sucedida manobra de marcha atrás, com uma derrapagem…
Feira a inspeção ao terreno, com dedos de algodão e chaves entre os dentes, lá abriu a porta do carro, sentando-se ao volante. Mas que carcaça merdenta, vociferou ante o persistente e paralisante silêncio do motor após repetidas meias-voltas à chave de ignição. Pois já vais ver! – disse, como se dirigisse a uma besta fazendo ouvidos fazendo ouvidos moucos às ordens do dono. E batendo estrondosamente com a porta ao sair, depois de destravar o carro, sem mais delongas, pôs-se a empurra-lo com todo o aferro, para o afocinhar no vazio!
É bem provável – ironizou – que tenha acabado de alterar a rota da órbita da terra e o número de dias do calendário anual, no instante em que a viatura desaparecera da sua visão…
O que o deixara apreensivo, porém, fora não ter ouvido qualquer ruído aparatoso da carripana a embater naquele fundão… Como se, uma vez arremessada do topo da falésia, andasse a velejar pela atmosfera… Tudo quanto dava conta, era daquela monótona progressão das ondas a desfazerem-se antes de atingirem as arribas…e mais nada! Seja como for, a ideia de, a partir daí,  deixar de serpentar  pelas estradas, amachucar a chapa do carro com incontáveis mazelas, despender fortunas com avarias mecânicas; ouvir e devolver constantes impropérios durante a condução, transmitia-lhe uma plena sensação de alívio. Como se, alvo de uma emboscada, tivesse acabado de sair ileso!
Apenas havia cometido um erro sério: esquecer-se de retirar a garrafa de gim, acomodada no porta-bagagens…

                                                            Lisboa. Julho, 2016








O País dos Cheiros


1986 (RM)
Começa-se pelo cheiro a gasolina como não há em nenhuma outra parte do mundo.  Porque as octanas são de outra etnia ou porque o pulmão sente aí os odores de uma forma diferente. Talvez porque o bafo quente do verão magrebino filtre os odores alterando as essências. O que sei é que sou mais saudavelmente sensível ao cheiro da gasolina marroquina do que às exalações do nosso suposto eucalipto. Enche-me muito mais o espírito. Sem dúvida.
(rm)
Mas em matéria de identificação deste país pelos cheiros, os que lá vão, para nunca mais repetirem a viagem, costumam ficar apenas pela lembrança da hortelã; os que, como eu, sonham  a cada dia que passa, em retornar, o cheiro da hortelã é apenas  a cor de um arco íris imaginário composto por múltiplos tons....
Cheira, cheira a perfume de hortelã, que flutua na água fervida para servir e conviver com o chã; cheira, cheira a perfume de hortelã as labirínticas calçadas que se pisam numa velha medina; cheira, cheira à doce erva aromática os panos envoltos  nas cinturas das mulheres.Mas não é só a hortelã que se encarrega de impregnar o ar. Há também o odor da carpintaria esculpida a partir do sândalo, do ébano ou da leve Tuya do sul transformada em caixinha de jóias, pente de cabelo ou tabuleiro de damas.  
Há o cheiro redondo, avermelhado ou amarelo das grossas contas de colar de âmbar, que brilham no pescoço das mulheres; o cheiro doce e volátil do haxixe a propagar-se intensamente pela espessura morna das noites de Marraquexe, Ourzazate ou de Chefchauen; o cheiro que se liberta da pimenta, da canela, dos açúcares  torrados, que cobrem as iguarias de mel; há os cheiros das essências contidas na transparência de pequenos frascos de uma velha botica. Há estes e outros múltiplos cheiros que, por vezes, misturando-se com a hortelã, ainda que não a apaguem, mudam o seu hálito obrigando-nos a respirá-la de outro modo. 
1991 (RM)
Já uma vez, comigo mesmo, me perguntei a que cheiramos nós, os portugueses que vieram de tão longe e que moram aqui há tanto tempo. É verdade que o nosso mercado da Ribeira, em Lisboa, ainda cheira a cacau à noite e a pão e a hortaliça saloios; a peixe de mar e a flores durante o dia. Que o Porto, Coimbra, Évora, Braga cheiram também  a qualquer coisa do campo, do rio ou do oceano que entra pela cidade… Dizem que as mulheres  parisienses deixam um rasto de perfume  à sua passagem quando poisam os passeios de Montmartre. É também conhecido como em Andaluzia, o fumo dos charutos  enche o ar das ruas, dos cafés e dos bares, ao cair da noite.Na Holanda, em Abril, as tulipas cegam os olhos até se tornarem insuportáveis aos meus, tantas são por tudo que é domínio  da Rainha.... Mas a que cheiram as rubras, amarelas, brancas ou até as recentes negras tulipas holandesas? A menos que plástico, a bem dizer a nada!

1986 (RM)
Tanto quanto sei, o prazer de uma pequena tontura provocada por um cheiro inalado em qualquer parte do mundo meu conhecido, faz-se sentir apenas num ponto determinado: rua, bairro, avenida, praça ou jardim e por algo perfeitamente referenciado. Ora, por Marrocos é todo o país que cheira  e se dá a cheirar. Seja através dos odores que, por agradáveis, se classificam de perfumes, seja através dos que, correntemente são para a maior parte das pessoas evitáveis: a bosta de boi, o que transpira do couro, do burro ou da mula, do pelo de cabra em transumância pelas escarpas do Atlas, do vulto do camelo, esse grande senhor do deserto, mais antigo que a cidade de Jerusalém.
Pessoalmente, e sem querer infundir qualquer espécie de repugnância aos que franzem o sobrolho perante os cheiros emanados do bafo ou do suor dos animais, eu até nem me incomodo, o que vale dizer que gosto!

1990 (RM)
No país dos cheiros, nessa babilónia de variadíssimos odores, até a matéria inodora que se encontra em qualquer parte do mundo, acaba por exalar um não sei quê de estranhamente diferente... E não é que as dunas do sul cheiram a um vermelho delicado? E não é que a trilobite e  a amonite, expostas numa bancada de madeira, à berma da estrada, cheiram a negro fumo, a pó milenar, a morte fossilizada, a fim de mundo ainda que palpitantemente vivos?   E que dizer dos potes de barro quentes pelo sol; das pequenas e macias esculturas de pedra de sabão; do brilho intenso dos transparentes cristais de quartzo ou das violáceas  ametistas, falsas ou reais? Que objeto há, do mineral mais tosco ao vegetal mais daninho, que não cheire, mesmo que indelevelmente,  a um perfume muito seu, muito próprio de pertencer  àquele lugar? Em Marrocos, tudo o que se vê, toca, conhece ou apenas se pressente, tem um hálito, uma aroma e uma sensação a reter para sempre.
1990( RM)
Assim, da terra ao ar, das estrelas ao chão que piso, inumeráveis são os cheiros que se cruzam e penetram tanto nas narinas como nos poros da pele. A própria música árabe, tuaregue e berbere, que outrora foram ouvidas na Península, e que hoje tanto podem vir de uma telefonia de pilhas como das nuvens voláteis ou do sorriso anónimo do olhar de Fátima,  que perpassa como uma brisa, cheira a asa de condor, a sombra de palmeira isolada em campo nu, e a água.A toda a água de Marrocos: a que goteja  de uma fonte sedenta; a que se aninha no fundo de um poço branco; a que move os pequenos moinhos das cataratas de Ouzoudde; a que corre pelos sulcos onde há hortas a regar; a que em gelo permanece nos picos que se avistam de Oukaimedene ao longo do verão; a que se transmuda em novelo branco no ar para vir a ser chuva; a que, límpida e serena, abriga os peixes sagrados dos lagos das Gargantas de Todra.
Cataratas de Ouzoude, Marrocos, 1990 (RM
Água, essa miragem sentida, sempre que me reencontro com o deserto, e que  cheira, na verdade cheira, quando desliza, gota a gota, pelo canto dos meus olhos.      

                                                                         Lisboa, Anos 90


                                               Todas as fotos foram obtidas em Marrocos.








segunda-feira, 31 de julho de 2017

Curto-circuito



Era um cavalo cansado e com um grande buraco na cabeça. A verdade, é que mesmo admitindo o seu abate, não deixava de ruminar o sonho de sempre: o palco, com os holofotes,  adereços, ponto e cenários. Quanto ao número de espectadores, não era exigente: bastaria representar exclusivamente para si.
 
Sobretudo à noite, de regresso a casa, não raro ouvia passos atrás de si. Daí que frequentemente movesse a cabeça para certificar-se se havia alguém no seu encalço. E às vezes havia. Mas nunca procuraram saber quem ele era. Ora, já o conheciam!
Como aceitar pacificamente ser tratado por louco? Para tal, haveria que auscultar a opinião de vários clínicos. E ainda outra condição: nenhum deles ser cúmplice do regime. Nem de deus!








Sol e  olhar são sinónimos. Enquanto não se apagarem!