segunda-feira, 31 de julho de 2017

Curto-circuito



Era um cavalo cansado e com um grande buraco na cabeça. A verdade, é que mesmo admitindo o seu abate, não deixava de ruminar o sonho de sempre: o palco, com os holofotes,  adereços, ponto e cenários. Quanto ao número de espectadores, não era exigente: bastaria representar exclusivamente para si.
 
Sobretudo à noite, de regresso a casa, não raro ouvia passos atrás de si. Daí que frequentemente movesse a cabeça para certificar-se se havia alguém no seu encalço. E às vezes havia. Mas nunca procuraram saber quem ele era. Ora, já o conheciam!
Como aceitar pacificamente ser tratado por louco? Para tal, haveria que auscultar a opinião de vários clínicos. E ainda outra condição: nenhum deles ser cúmplice do regime. Nem de deus!








Sol e  olhar são sinónimos. Enquanto não se apagarem!






domingo, 30 de julho de 2017

Indagação



Pergunta de certo oficial, recém-chegado de Bissau ao aquartelamento de Piche, que fora na véspera alvo de uma grave flagelação:
Então, rapaz, diz-me como ficou o depósito de géneros?
Não faço ideia, meu major. Sei é que o vagomestre levou um tiro nos cornos!                                                                      
                                                                          Lisboa, fevereiro, 1980

* Qualquer semelhança com o real dos anos 60 é pura coincidência…




sábado, 29 de julho de 2017

Os Gatos Pretos, Brancos e Amarelos

Texto dedicado ao meu amigo Luís Graça




De tão densa a floresta, mal o sol penetra. Escura como a galeria funda de uma mina. Húmida e lúgubre, por vezes, apavora!
E que dizer dos ramos e mais ramos espinhosos que nos rasgam a pele? Das ardilosas covas abertas, pelas quais se pode desaparecer para sempre? Das ciladas dos animais? Sobretudo dos gatos brancos, pretos e amarelos que, eriçados, soltam mios e mostram as garras, quando não se ocultam atrás dos troncos, das pedras e da folhagem. Os que nunca se abstêm de espiar, tanto os nossos gestos, como as nossas falas caladas.
Mesmo assim, não desistimos de cantarolar uma letra infantil que conta a história de um cão felpudo e sem abrigo, abandonado pelo seu dono por um amor havido a uma mulher… E enquanto os mochos, nas copas das árvores, piam, piam incansavelmente, lembrando viúvas a chorar, nós continuamos adiante, sem evitar os espinhos mais agudos, que nos deixam a sangrar. Mas por muito exânimes, voltamos a repetir cada vez mais alto a cantilena, onde entra a história do cão abandonado… sem que alguma vez os gatos pretos, brancos e amarelos nos percam de vista e, eriçados, mostrem as garras e espiem, espiem….
Apenas a memória do sol nos ilumina um pouco. A estrela que ainda mantém as suas marcas no nosso corpo, sobretudo nas mãos humedecidas, a fecharem-se e a abrirem-se, instintivamente, detendo e largando as ambições de outrora….
Só bem mais tarde, a inesperada clareira de um extenso lago, acaba por nos obrigar a interromper a marcha. E é, então, aí que os gatos  pretos, brancos e amarelos, quais guardiões do fogo do inferno, logo se dispõem em volta, tornando impossível romper com aquele anel odioso de felinos! Apenas nos resta a oportunidade de matar a sede e quase fazer ruir o céu, ao cantarmos, de novo, a história aprendida na nossa infância.
Impensável é que, nesse instante, os gatos pretos, brancos  e amarelos, fossem levados a distender as patas dianteiras, recolher as garras, inclinar as cabeças redondas, deixando-se, por fim, adormecer…
                         Quartel de Penafiel, 24- 10 - 1968







quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sem Trincheiras


1  2
      1  2
             2  1
                  2  1
                        1  2  3
                                  3  2  1
                                            Diz se me ouves!
água  mar
            água  mar
                           mar  água
                                       mar água
                                                água  mar  terra
                                                               terra   mar  água
   
                                             Escuto!


( Na senda de UM dos estilos poemáticos dos anos 50, 60 e....)

                                                                                                           Guiné-Bissau, Anos 60


Carrossel


É o crime dentro do vício
O remo dentro da barca
A gema dentro do ovo
A graxa dentro da lata

É o riso dentro do povo
A bala dentro do cano
A merda dentro da tripa
A barba dentro da sopa

É o pó dentro da arca
A vigília dentro da cela
A faca dentro do bolso
A alcova dentro da noite

É o gozo dentro da cama
O vivo dentro do morto
A dança dentro da farra
O velho dentro do novo 

É o bicho dentro do fruto
O rato dentro do esgoto
O frio dentro do gelo
O cio dentro do corpo


                                                                                            
                                                                                                          Lisboa, Maio,1980

POEMATOS ( 1 )

1


O zumbido da abelha à minha volta
Crava o ferrão ou não?
Os latidos dos cães soltos
E acorrentados nos quintais.
Trazem raiva, mordem ou não?
E eu, de novo, na minha infância
Reencontrada neste verão
Ainda morro hoje ou não?

                                                                       Lisboa, 4 de agosto,2016