terça-feira, 15 de agosto de 2017

POEMATOS (7)



Chevrolet
                                               
                                            

                             Olho para o Chevrolet
Lustroso e preto
Sem data na chapa
De matrícula

Os dois faróis
Quase humanos
Que me fixam
Da cabeça aos pés

Os cromados sem poeira
Ou poros corrosivos
Que brilham
Quais puros cristais

E rodo à sua volta
Como quem ensaia
Uns passos de valsa
Colado a uma mulher

Até que estaco adiante
Do meu retrato
Emoldurado no retrovisor
Sem pixels, a rir,

Por me ver apeado
Sem parecença alguma
Com o Álvaro ao volante
Do chevrolet emprestado


                                                                   Lisboa, julho, 2014

POEMATOS (6)

   
  Exceção


É com os cotovelos
apoiados no vão da janela
que celebro a entrada de maio.

E saúdo o rapaz da bicicleta
suando, triunfante,
ao cortar a meta.

A vizinha que, à passagem
de cada avião,
sonha em voar alto.

O velho, outrora
praticante de judo e remo,
que não dispensa
o amparo das muletas.

E saúdo o meu neto
que, a passo acelerado,
dobra a esquina
e sobe ao meu andar
para me dar um beijo
e ligar a playstation

A rapariga amuada,
pelo namorado
a ter trocado por outra
menos anafada

Saúdo a Rosa
com uma doença
cujo nome
ninguém sabe qual seja.

E saúdo esta, aquela
outra e outra pessoa,
todas conhecidas minhas
quando as vejo passar.

Sequer a minha própria
sombra ignoro,
para me sentir em companhia
e com quem falar.

Só não saúdo a tua resposta 
há cem anos por dar.

                                                                   Lisboa, Maio,2014

POEMATOS ( 5)



Rapaz!


Fecha a porta
Trás as chaves
Põe o chapéu
Desliga o gás

Apanha o papel
Diz olá
Anda para corre
Acorda dorme

Toma larga
Fala cala
Veste despe
Não e não

 Mas que puta 
De vida
É esta?

                                                                            Lisboa, Outubro, 2014

POEMATOS ( 4 )


O meu chapéu  

e celebro a vaca cor de chocolate
que antes de desossada esquartejada e limpa
ruminava relva trevos e raros espargos
nos verdes lameiros do barroso

uma fêmea bovina completa e genuína
de manso coração alma cristã e duros cascos
que a nunca ter dado em vida nada ao mundo
salvo cântaros de leite e uns quantos bezerros

me deixou a pele do chapéu que faz de mim
outro homem bem mais alto do que sou
com ar de caubói mas sem coldres à cintura
nem boiada em Lisboa sempre apeado.


                                                         Lisboa, Dezembro,2014

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

“O Inquilino”

                                           À amiga Sara Loureiro

Foi a leitura dum poema de Álvaro de Campos que terá concorrido para o suicídio de um compatriota nosso.
Tal como a descoberta da poesia de Afonso Duarte pelo administrador do meu edifício, viria a permitir-lhe redigir,  com  mais esmero, as atas do condomínio.
Quer no primeiro exemplo, deveras trágico, quer no segundo, bem prosaico, é a poesia que acaba por patentear a hipotética e episódica influência  sobre um ou outro leitor.
 E dizer que foi  a releitura  de " O Inquilino" de Carlos de Oliveira que me levou, em certa época, a abandonar o quarto  alugado, mudando-me a mim!



                                                                                                                        Lisboa, Outubro, 2014

Alves Redol

De cigarro na boca, e um pequeno bloco entre as mãos, parece desenhar. Mas não! O que faz, é escrevinhar os recortes dos montes, os penedos graníticos, os atalhos pedregosos, os sucalcos das vides que surpreende a partir de um ponto altaneiro e defronte ao Pinhão. Bem como as eiras, ainda nuas, à espera do momento da debulha e da desfolha;  o pouca-terra arfando, como se fugisse das suas próprias nuvens negras de fumo.
Só que não se confina apenas a escrevinhar o que a sua visão abarca, filtra, compõe, detalha e recria, que os sons também merecem umas linhas escritas no caderno... Como os chilreares alegres e os latidos alvoraçados; os silvos estridentes das sirenes e o badalar timbrado dos sinos; o gemido dos eixos dos carros arrastados pela parelha de bois; o restolhar do rio, redemoinhando por entre as fragas traiçoeiras, capazes de despedaçarem o coração de qualquer mareante.
Porém, e entre todos os sons, o mais eloquente: o das falas humanas, matéria que acabará por constituir o maior alimento na construção da escrita literária de Alves Redol em torno do rio Douro, tal como o havia feito com as estórias narradas pelas gentes avieiras do rio Tejo. (...)
V.F.Xira,Outubro,2014

POEMATOS ( 3 )

Toledo

é noite de verão em toledo cheio de ruas de alfama
e eu devo ser um peregrino sem saber que o sou
caminhando a solo pelas callas pisadas por el greco

a certa altura já cansado dos olhos e de muito andar
procuro nos bolsos a morada do hotel onde me instalei
vendo que a perdi como a mim me perco num instante

e agora sequer a lua cheia me distrai nem o gato
que se esgueira pelo empedrado fora ou a mulher que passa
sorrindo ainda mais que as flores na primavera

nada me satisfaz a não ser a sorte em dar com o hotel
para poder aninhar-me dentro da mala de viagem
esperando que alguém a troque e consigo a leve

para qualquer outro lado como paris casablanca
tóquio veneza lisboa com um bilhete de ida apenas
sem retorno ao ponto de partida de toledo



                                                                                  Agosto,2014