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quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Sobre os Joelhos ( 2 )
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Sobre os Joelhos ( 1 )
O abandono dos corpos a que se entregam os
velhos, os toxicodependentes e outros que não sei bem em que prateleira
arrumá-los. Gente que repousa por muito tempo parada, desenhando gestos sem
pressa; que dormita sobre um degrau ou um banco de pedra.
Não creio que pensem em nada ou vejam o que se passa em volta. Só, talvez, uma única coisa, muito pequena e leve. Também parecem surdos ao bulíçio que os cerca.
Anestesiados de todo, salvo à mornidade do sol. E dizer que, por vezes, os invejo?
Lisboa, outubro,2016
ESTORIETAS ( 5 )
Análises
Médico de clínica
geral e crítico literário, voltado para o paciente, com pretensões em tornar-se
num escritor de pequenos contos e poemas:
“Com esta taxa de
açúcar, valor de tensão arterial e ritmo cardíaco irregular, não me parece que
venha a ser capaz de mostrar o seu talento numa única linha!”
Depois,
arrematando:
“A não ser que o laboratório tenha trocado as
análises. Vamos repeti-las!”
Lisboa, Agosto, 2016
POEMATOS ( 9 )
Sobremesa
A cada
verão, não quero outra sobremesa:
figos
brancos a pensar na minha mãe;
peras
ainda um pouco verdes, no meu pai.
Depois,
como quem inala o pó de uma galáxia
depositado
numa cápsula trazida da farmácia,
fumo um
cigarro e outro até queimar os dedos.
Só
então bebo a chávena cheia de café
adoçado
com uma pastilha de aspartamo
e duas
soluçadas lágrimas amargas.
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Lisboa, setembro,2016
terça-feira, 15 de agosto de 2017
POEMATOS (8)
Maré
O velho
sofá
sentou-se na
praia
para ver a
lua cheia
a surdir do
mar
só que a
maré
ao chegar
primeiro
e mais cheia
que a lua
disse ao
velho sofá:
de hoje em
diante
deixo-te
ficar sentado
fora
da praia
sem mim a
boiar
Lisboa, 2013
POEMATOS (7)
Chevrolet
Olho para o
Chevrolet
Lustroso e preto
Sem data na chapa
De matrícula
Os dois faróis
Quase humanos
Que me fixam
Da cabeça aos pés
Os cromados sem poeira
Ou poros corrosivos
Que brilham
Quais puros cristais
E rodo à sua volta
Como quem ensaia
Uns passos de valsa
Colado a uma mulher
Até que estaco adiante
Do meu retrato
Emoldurado no retrovisor
Sem pixels, a rir,
Por me ver apeado
Sem parecença alguma
Com o Álvaro ao volante
Do chevrolet emprestado
Lisboa, julho, 2014
Lisboa, julho, 2014
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