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| Aguarela, sem data |
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
sábado, 21 de outubro de 2017
Flashes
Flashes no Cais das Colunas: a louca que interrompe
bruscamente o seu andar sem tino para morder, com raiva, um grande pepino
tirado da carteira sebenta; o “ musga “, desdentado, aspirando cheio de fé um
charro; uns quantos homens dobrados pela cintura, catando na lama minhocas uma
a uma.
Os sem abrigo e sem nome, espalmados nas pedras
soalheiras como animais de sangue frio; os três ciganos a impingirem anéis,
cordões, relógios, pistolas de alarme e a ilusão da erva ser marroquina.
A repentina invasão de pequenos e rápidos japoneses
saídos de um auto - pullman, com a câmara em punho. Dois ou três disparos
cegos, e já está: contra o cristo rei e a ponte, que ainda é cedo para o pôr do
sol. Depois, sucederá a corrida para o veículo que os trouxe, como se
fossem ameaçados por um tarzan carteirista.
Daqui a pouco hão de voltar a fazer fogo para os
mesmos alvos. Mas desta vez entrincheirados nas muralhas do castelo de s. Jorge.
Quanto aos quatro jovens engravatados, impingindo deus
aos incautos transeuntes, por que não os leva satanás pelo mar fora?
Lisboa,
1996
Redes Assassinas
Estendem-se no chão como lençóis ao sol, a poucos
passos de rústicos ancoradouros onde atracam as embarcações, quando não mesmo
em terreno aberto, ainda dentro do perímetro de uma ou outra aldeia à borda de
água.
São as redes mosqueteiras que muito têm contribuído
para a diminuição populacional das enguias adultas, estimulando na sua falta a
oferta dos aquaristas...
Lamentável é que a tão evidente exposição das redes,
conhecidas por assassinas entre os populares, não acabe por mobilizar as
autoridades a agir sobre quem logra obter chorudos rendimentos, ao utilizá-las
na proibitiva captura do meixão: a migradora enguia bebé, nascida no Mar dos
Sargaços.
Mas por que razão não se arranca de vez a faixa que
venda os olhos da justiça? E ainda: a espada e a balança ?
Lisboa, 2015
Ainda a campanha não arrancou já o meu iluminado
camarada se coloca na pole position para ministro da agricultura e pescas e
quiçá acumulando com o ministério da justiça. Cuidado, olhe que o amigo Costa
anda por aí coaptando a rara gente que fala alto e não têm medo do coelho da
páscoa!
Pudesse o meixão votar e era garantido!!!
Pudesse o meixão votar e era garantido!!!
Bela, a florista
À memória de Raúl Brandão.
Enquanto um grita e outro geme, os demais soluçam e
sussurram, intentando mesmo alguns soerguer a cabeça ou estender
tremulamente uma mão como quem esmola. Na verdade, raros são os que se mantêm
anestesiados para todo o sempre, sem reclamarem a coroa, a palma, o mais
singelo ramo encomendado na véspera.
E é aí que Bela, a florista, acorda sobressaltada a meio da noite e,
com o coração a sair-lhe do peito, logo desce à cave da loja para confirmar se
os arranjos estão lá, confecionados de acordo com as indicações dadas pelos
clientes: as rosas dobradas e brancas, os lírios roxos, as giribérias, os
antúrios, os crisântemos...
Porém, as
piores noites acontecem quando, de regresso à cama, as súplicas não deixam de
se ouvir até ao raiar da manhã. É de enlouquecer!
Lisboa, 26 de março, 2015
O Filme
à Marga
De repente, gritava-se : “está na hora!”, sempre que o
filme tardava em arrancar ou já
iniciado perdia de súbito o pio. Então, clamava-se em uníssono: “olha o sonoro,
olha o sonoro!”, enquanto o teto parecia desabar a todo o momento, com o
estrondoso sapateado que se alastrava por toda a sala.
Mesmo os começados à hora prevista demoravam demais,
tal a ansiedade de ver as primeiras imagens exibidas no ecrã. E redundantes
eram aqueles dois ou três segundos ocupados com o título, que todos sabiam ao
que iam!
Sequer eram reprimidos uns estridentes assobios
quando, na altura da projeção, os fusíveis pifavam ou a película dava o berro,
rompendo-se por motivos óbvios: a cena do beijo ser demasiado escaldante, o
tiro não atingir o artista principal por uma unha negra, qualquer outra imagem envolvendo
um maior suspense...
Sob o efeito da atmosfera inerente ao filme - aquilo
era mais do que a sério - gerava-se então um atropelar de emoções exteriorizadas
em incontidos óis, uis e ais
exclamativos associados a instantâneos e elétricos saltos na cadeira, esgares e
esperneares; suores, tremores, tudo nervos...
Naqueles recuados tempos, pouco mais éramos do que
umas incautas marionetas acionadas por caprichosos e intocáveis deuses da
sétima arte!
Hoje, quando me recosto no cinema desnervado do meu
Bairro e ao som ruminante das pipocas, nem sempre fixo os olhos na tela,
antes escolhendo seguir o filme que se revela na câmara escura do meu ser:
a três dimensões e a cores, a que não falta um fundo
musical, sem legendas, onde contracenam apenas dois atores: tu e eu!
Lisboa, 26 de abril, 2015
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
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