sexta-feira, 21 de setembro de 2018

1. Texto do Renato Monteiro, disponível no seu blogue "A Minha Cave" 

28 de julho de 2017 > Os Gatos Pretos, Brancos e Amarelos


Texto dedicado ao meu amigo Luís Graça (***)

De tão densa a floresta, mal o sol penetra. Escura como a galeria funda de uma mina. Húmida e lúgubre, por vezes, apavora!

E que dizer dos ramos e mais ramos espinhosos que nos rasgam a pele? Das ardilosas covas abertas, pelas quais se pode desaparecer para sempre? Das ciladas dos animais? Sobretudo dos gatos brancos, pretos e amarelos, que, eriçados, soltam mios e mostram as garras, quando não se ocultam atrás dos troncos, das pedras e da folhagem. Os que nunca se abstêm de espiar, tanto os nossos gestos, como as nossas falas caladas.

Mesmo assim, não desistimos de cantarolar uma letra infantil que conta a história de um cão felpudo e sem abrigo, abandonado pelo seu dono por um amor havido a uma mulher… E enquanto os mochos, nas copas das árvores, piam, piam incansavelmente, lembrando viúvas a chorar, nós continuamos adiante, sem evitar os espinhos mais agudos, que nos deixam a sangrar. Mas, por muito exânimes, voltamos a repetir cada vez mais alto a cantilena, onde entra a história do cão abandonado… sem que alguma vez os gatos pretos, brancos e amarelos, nos percam de vista e, eriçados, mostrem as garras e espiem, espiem

Apenas a memória do sol nos ilumina um pouco. A estrela que ainda mantém as suas marcas no nosso corpo, sobretudo nas mãos humedecidas, a fecharem-se e a abrirem-se, instintivamente, detendo e largando as ambições de outrora….


Só bem mais tarde, a inesperada clareira de um extenso lago, acaba por nos obrigar a interromper a marcha. E é, então, aí que os gatos pretos, brancos e amarelos, quais guardiões do fogo do inferno, logo se dispõem em volta, tornando impossível romper com aquele anel odioso de felinos! Apenas nos resta a oportunidade de matar a sede e quase fazer ruir o céu, ao cantarmos, de novo, a história aprendida na nossa infância.

Impensável é que, nesse instante, os gatos pretos, brancos e amarelos, fossem levados a distender as patas dianteiras, recolher as garras, inclinar as cabeças redondas, deixando-se, por fim, adormecer…

Quartel de Penafiel, 24- 10 - 1968

domingo, 2 de setembro de 2018

Auto Retrato do AR CONDICIONADO


                                                                         
Nasceu em Freixo de Espada à Cinta, mas veio para Lisboa muito cedo onde passou a residir em casa de uma tia abastada.

Bastante irregular nos estudos, em nada se distinguia das demais crianças no prazer de brincar, embora a sua distracção preferida fosse com uma agfamatic - pocket  já toda espatifada.

Ao atingir a adolescência começou a ter tonturas, falta de ar e fraqueza. Aí percebeu que a sua vocação era realmente ser fotógrafo, o que o levou a viajar pela a Arábia Saudita onde montou um Estúdio.  

Sempre respeitando a tradição islâmica, nunca fotografou mulheres com decotes nem alças, usando sempre t-shirts brancas com gola alta para tapar o corpo dos modelos.

Declarando-se inocente, nem com isso pôde evitar a acusação judicial de ter plagiado uma foto de uma revista de Modas no Dubai, facto que o condenou à prisão.

Mal se viu em liberdade condicional, voou para Lisboa onde se mantém em situação prolongada de desemprego.  

A sua participação nos “Pezinhos de Molho” é para ocupar o tempo e por não saber fazer outra coisa senão fotografia!

Entretanto, trabalha afincadamente numa “ História da Fotografia Portuguesa” onde espera integrar fotos suas, e obter  o reconhecimento que há muito lhe é negado.

Espera morrer pobre, desbatizado e com menos dez quilos!

Nota: Não fosse a insistente pressão dos meus incondicionais admiradores, e não teria publicitado aqui este breve retrato meu. Fi-lo contrariado, e com o sentimento inútil de haver cumprido mais outro dever!  



Laços e Nós



 



À LAIA DE ANUNCIADA DESPEDIDA...


Na antevéspera do 3º aniversário dos Pezinhos de Molho, eis o que espero, prioritariamente, fazer:

Aprontar de vez a minha pesada mala de viagem, tatuada com um medonho dragão; não perder a carteira com o bilhete pré comprado na Gare do Oriente; despachar o velho cachorro para o canil; subir, com um ramo de rosas vermelhas, a porrada de degraus que me separa da vizinha do 5º andar, e dedicar pela derradeira vez, com um sincero obrigado, alguns mimos fotográficos ao amplo leque de amigos ( conhecidos ou não) que têm acompanhado a edição das minhas fotos.

Este vivo agradecimento, porém, não envolve os demais elementos dos pezinhos ( af, CG e CX),  que nunca quiseram admitir como  as minhas postagens lograram inspirá-los no processo da suas produções, optando por continuados comentários bota abaixo, salvo raríssimos  escritos seus sob o efeito, quer de reles bebidas alcoólicas, quer de drogas magrebinas ou mesmo xutos provenientes da nossa abrasileirada Costa da Caparica.

E perdoe-se, já gora, a seguinte inconfidência:

quantas vezes, no instante de proceder a uma soberba captação, não me vi acotovelado pelo af? Impossibilitado de disparar, devido ao  CX  ter-se posicionado, maldosamente,  entre mim e o “ meu” objeto? Ou perturbado com os piropos do CG dirigidos a gajas com uma postura e beleza assaz duvidosas?

Não! Não! Basta! Basta! Adeus, Pezinhos de Molho! Chegou a hora de aceitar o convite que me foi feito por um conceituado administrador de outro blogue, que é Chinês e, para além de oferecer uma condigna remuneração mensal, me garante:

exposições semestrais no coração das grandes capitais mundiais, e diários e justos e sinceros comentários altamente elogiosos às minhas fotos!

A partir de agora, pois, e por curto tempo, enchei o olhar com a última coleção de fotos selecionadas pelo A.C. e, sem preconceitos fóbicos, deixai-vos excecionalmente enlear pela beleza que delas emana:

apesar de uma digitalização a martelo e  com uma grande economia de pixels, em consonância com os dias tristes e magros,  impostos por esta ultrajante Crise!