terça-feira, 25 de setembro de 2018

estúpidos poemas


Se te ouvi? Sim
Que em chegando a casa
Logo tratei de embeber
As tuas palavras
Trazidas dentro dos bolsos 
No coração duma jarra
Sem flores.  


estúpidos poemas


E os ruídos da rua são assim:
Sobem pela frontaria dos prédios
Penetram nas janelas abertas ao verão,
Chegando depois a rastejar como repteis
Por entre as frinchas dos vãos.


E eu estremeço como uma corda
De violoncelo puxada
Em direção ao peito
E logo  solta
Da  amarra da mão


Tudo porque estou vivo
Podendo dançar
Na palma da mão
do meu palhaço
de faiança de Limoges
aos  dias pares, alegre 
ímpares, triste.
                                                                Lisboa, 24 sete,2018

estúpidos poemas


Poemas sem pernas é o menos:
Usam muletas ou andam de carrinho
Poemas acamados, ora
Haja alguém para tratar-lhes da higiene,
Das necessidades fecais
E dos alimentar…
Poemas com mãos mutiladas,
Pois então, pintem a macaca usando os pés…

Mas o pior de todos os poemas
São os decapitados como os meus,
Que me deixam sem saber para onde
Terá rolado a minha cabeça
Com os sonhos seus.

                                                                 Lisboa, 24 setembro,2018



sexta-feira, 21 de setembro de 2018

1. Texto do Renato Monteiro, disponível no seu blogue "A Minha Cave" 

28 de julho de 2017 > Os Gatos Pretos, Brancos e Amarelos


Texto dedicado ao meu amigo Luís Graça (***)

De tão densa a floresta, mal o sol penetra. Escura como a galeria funda de uma mina. Húmida e lúgubre, por vezes, apavora!

E que dizer dos ramos e mais ramos espinhosos que nos rasgam a pele? Das ardilosas covas abertas, pelas quais se pode desaparecer para sempre? Das ciladas dos animais? Sobretudo dos gatos brancos, pretos e amarelos, que, eriçados, soltam mios e mostram as garras, quando não se ocultam atrás dos troncos, das pedras e da folhagem. Os que nunca se abstêm de espiar, tanto os nossos gestos, como as nossas falas caladas.

Mesmo assim, não desistimos de cantarolar uma letra infantil que conta a história de um cão felpudo e sem abrigo, abandonado pelo seu dono por um amor havido a uma mulher… E enquanto os mochos, nas copas das árvores, piam, piam incansavelmente, lembrando viúvas a chorar, nós continuamos adiante, sem evitar os espinhos mais agudos, que nos deixam a sangrar. Mas, por muito exânimes, voltamos a repetir cada vez mais alto a cantilena, onde entra a história do cão abandonado… sem que alguma vez os gatos pretos, brancos e amarelos, nos percam de vista e, eriçados, mostrem as garras e espiem, espiem

Apenas a memória do sol nos ilumina um pouco. A estrela que ainda mantém as suas marcas no nosso corpo, sobretudo nas mãos humedecidas, a fecharem-se e a abrirem-se, instintivamente, detendo e largando as ambições de outrora….


Só bem mais tarde, a inesperada clareira de um extenso lago, acaba por nos obrigar a interromper a marcha. E é, então, aí que os gatos pretos, brancos e amarelos, quais guardiões do fogo do inferno, logo se dispõem em volta, tornando impossível romper com aquele anel odioso de felinos! Apenas nos resta a oportunidade de matar a sede e quase fazer ruir o céu, ao cantarmos, de novo, a história aprendida na nossa infância.

Impensável é que, nesse instante, os gatos pretos, brancos e amarelos, fossem levados a distender as patas dianteiras, recolher as garras, inclinar as cabeças redondas, deixando-se, por fim, adormecer…

Quartel de Penafiel, 24- 10 - 1968

domingo, 2 de setembro de 2018

Auto Retrato do AR CONDICIONADO


                                                                         
Nasceu em Freixo de Espada à Cinta, mas veio para Lisboa muito cedo onde passou a residir em casa de uma tia abastada.

Bastante irregular nos estudos, em nada se distinguia das demais crianças no prazer de brincar, embora a sua distracção preferida fosse com uma agfamatic - pocket  já toda espatifada.

Ao atingir a adolescência começou a ter tonturas, falta de ar e fraqueza. Aí percebeu que a sua vocação era realmente ser fotógrafo, o que o levou a viajar pela a Arábia Saudita onde montou um Estúdio.  

Sempre respeitando a tradição islâmica, nunca fotografou mulheres com decotes nem alças, usando sempre t-shirts brancas com gola alta para tapar o corpo dos modelos.

Declarando-se inocente, nem com isso pôde evitar a acusação judicial de ter plagiado uma foto de uma revista de Modas no Dubai, facto que o condenou à prisão.

Mal se viu em liberdade condicional, voou para Lisboa onde se mantém em situação prolongada de desemprego.  

A sua participação nos “Pezinhos de Molho” é para ocupar o tempo e por não saber fazer outra coisa senão fotografia!

Entretanto, trabalha afincadamente numa “ História da Fotografia Portuguesa” onde espera integrar fotos suas, e obter  o reconhecimento que há muito lhe é negado.

Espera morrer pobre, desbatizado e com menos dez quilos!

Nota: Não fosse a insistente pressão dos meus incondicionais admiradores, e não teria publicitado aqui este breve retrato meu. Fi-lo contrariado, e com o sentimento inútil de haver cumprido mais outro dever!  



Laços e Nós



 



À LAIA DE ANUNCIADA DESPEDIDA...


Na antevéspera do 3º aniversário dos Pezinhos de Molho, eis o que espero, prioritariamente, fazer:

Aprontar de vez a minha pesada mala de viagem, tatuada com um medonho dragão; não perder a carteira com o bilhete pré comprado na Gare do Oriente; despachar o velho cachorro para o canil; subir, com um ramo de rosas vermelhas, a porrada de degraus que me separa da vizinha do 5º andar, e dedicar pela derradeira vez, com um sincero obrigado, alguns mimos fotográficos ao amplo leque de amigos ( conhecidos ou não) que têm acompanhado a edição das minhas fotos.

Este vivo agradecimento, porém, não envolve os demais elementos dos pezinhos ( af, CG e CX),  que nunca quiseram admitir como  as minhas postagens lograram inspirá-los no processo da suas produções, optando por continuados comentários bota abaixo, salvo raríssimos  escritos seus sob o efeito, quer de reles bebidas alcoólicas, quer de drogas magrebinas ou mesmo xutos provenientes da nossa abrasileirada Costa da Caparica.

E perdoe-se, já gora, a seguinte inconfidência:

quantas vezes, no instante de proceder a uma soberba captação, não me vi acotovelado pelo af? Impossibilitado de disparar, devido ao  CX  ter-se posicionado, maldosamente,  entre mim e o “ meu” objeto? Ou perturbado com os piropos do CG dirigidos a gajas com uma postura e beleza assaz duvidosas?

Não! Não! Basta! Basta! Adeus, Pezinhos de Molho! Chegou a hora de aceitar o convite que me foi feito por um conceituado administrador de outro blogue, que é Chinês e, para além de oferecer uma condigna remuneração mensal, me garante:

exposições semestrais no coração das grandes capitais mundiais, e diários e justos e sinceros comentários altamente elogiosos às minhas fotos!

A partir de agora, pois, e por curto tempo, enchei o olhar com a última coleção de fotos selecionadas pelo A.C. e, sem preconceitos fóbicos, deixai-vos excecionalmente enlear pela beleza que delas emana:

apesar de uma digitalização a martelo e  com uma grande economia de pixels, em consonância com os dias tristes e magros,  impostos por esta ultrajante Crise!