sábado, 24 de novembro de 2018

E a cada página folheada

                    
 Ao  Rui Fabião: imagem e texto.



E a cada página folheada, um morto e outro e outro morto. Uma sucessão quase imparável, interrompida apenas quando a foto é de uma criança, jovem mulher ou homem, e que hoje estão bem, mal, assim assim na vida.

Mas estes, os vivos, contam-se pelos dedos, que os retratos tirados há cerca de uma década foram quase todos a velhos, bem mais numerosos na aldeia. Muito mais.

E penso como se nunca tivesse pensado antes: a morte não tem fim. Está sempre em marcha e vem aí....

Depois, fecho o livro de fotografias, abandonando-o sobre a mesa, com a contracapa voltada para o teto da casa.  E despeço-me: Adeus!



sábado, 20 de outubro de 2018

Carta antiga a uma amiga que foi



    
        Há amores azuis, amarelos, verdes, roxos... Mas também existem recentemente uns amores de tons difíceis de catalogar, produzidos pelos processos informáticos  dos computadores, como a cor  que se  espelha do carro da Guida.... Seguramente que são inúmeras as cores deste gostar de alguém ou de alguma coisa.
       Por mim, acho que uma pessoa não gosta só com uma cor de gostar, mas com duas ou duas mil. O que eu sei é que não amo nunca em branco, nem com branco, em lume branco... Se o uso para exprimir coisas a alguém é só por distracção, e com toda  a certeza que nessas alturas o branco sai salpicado de pingos de óleo negro, ou de manchas de cera duma vela ardendo por alguém que foi e não volta mais....
        Estou para aqui a especular sobre a matéria cromática do gostar, parece-me que de ti e, ás vezes, quando estou distraído, tenho a ligeira sensação que gosto de ti em arco-iris. Não achas que são demasiadas cores? Sete! Claro que há mais, ou não fosse dar crédito a um amigo meu que é cientista e afirma reconhecer sete mil cores. Mas, minha amiga, sê modesta e contenta-te com aquilo que te dão se for bem dado...
       Este livro que te ofereço também é bem dado. Está cheio de cores, embora, predomine o preto. O branco está lá só por estratégia: mostrar a importância do preto. O preto é a fotografia; o preto é o negro africano que passa a vida a tropeçar na minha máquina fotográfica quando eu faço um disparo. Preto é quando penso pensar em ir a Marrocos, que nunca mais vou, ou até à cama que continuo a ir, embora, por vezes acompanhado de insónias...  
       Eu, ultimamente, também ando vestido de preto para andar melhor impressionado comigo. Já reparaste nisso? Aposto que não. Mas que importa! Eu estou demasiadamente a falar no eu, mas não penses que as coisas andam só à volta de mim. Também andam à tua volta. Eu próprio ando à tua volta quando tu andas à volta de mim. Mesmo sem haver aquelas noites africanas: “Faz-me Festas em Lisboa”...
       E agora vou acabar com o eu para te dizer que não acho que este livro que te ofereço seja uma grande coisa. A amizade também é porreira; aquela criticazinha, carago, também estimula um pouco… Mas adiante!     

       Há eus que têm necessidade de arranharem um pouco os outros eus. Ou os eus dos outros. Por causa dum tique. Duma convicção. Dum princípio. Ou, quem sabe, de uma miopia galopante. Duma má diGESTÃO: um tipo come demais de um lado e menos de outro. ( Não alteres o sentido da última frase, que a pornografia não faz nada aqui...) Ás vezes, a gente quer pôr o mundo quadrado, farto de o ver monotonamente redondo.  Ou não é assim?
       Mas estava eu a querer dizer que o livro não é grande coisa. Se houve coisa grande foi eu andar tanto tempo na Zona Oriental de Lisboa para isto, que podia ser melhor, se me fosse dado a mim substituir a gaja das ampliações que até era engraçada, se pudesse ainda acompanhar mais de perto o trabalho dos outros tipos-empresas que o produziram.
        Aproveito para dizer-te tudo isto, porque mesmo que queiras, nunca me darás os ouvidos, os teus, que eu mereço, pois ultimamente vejo-te  sempre mais ligada  ao computador do que a qualquer outra pessoa como eu a quem não faltam também programas, teclas para primir, ESCS, CTRIS, PAUSES e coisas do género...
       Bom, não sei se deste por isso, mas a tarde cai, embrulhada num papel de ruído que vem duns operários que estão a fazer buracos na minha rua e da Guida.( Continuamos juntos, é sabido e também, suponho por causa do preto....)
        A tarde cai com a música duma broca a partir o cimento. A tarde cai e não tarda que o dia se ponha pretinho como eu gosto. Não agradeças o tempo que perdi contigo numa coisa que dá mais trabalho que uma acta do C. P. O Tempo perdido contigo, ganha-se!
       A tarde continua a cair,  agora com o bater contínuo duma picareta ou dum martelo no passeio. Não chega a tremor de terra, mas anda próximo. Quando eu era puto andava sempre a dizer um poema dum poeta russo que perguntava:  “quando a guerra vier...


Vamos morrer abraçados?”

       Qualquer escrita me parece sempre a mim mais difícil do que fotografar ( difícil não é o termo apropriado, mas o ruído que entra aqui  serve para justificar a incapacidade de substitui-lo por outro vocábulo mais flexível).
       Ó ruído não te cales que a gente sempre precisa de um argumento para camuflar as nossas insuficiências. Falo da escrita, insistindo  na dificuldade que sinto em ser bem sucedido, quando a comparo ao acto fotográfico. Na verdade, tenho para mim  que a elaboração de uma simples acta de uma reunião de grupo disciplinar ou do C. P. pede mais concentração e habilidade do que tirar o retrato ao português mais ilustre, dentro de um estúdio e com a preocupação de explorar devidamente os projectores, o tripé, caso o usasse, e o grão da película... 

                                                            Lisboa, 1998




sábado, 13 de outubro de 2018

A Natureza da Fotografia em Mário Furtado


A NATUREZA DA FOTOGRAFIA EM MÁRIO FURTADO
1
       É sabido que toda a captação fotográfica, ao envolver uma cadeia de múltiplas escolhas pessoais (enquadramento, ponto de vista, composição…) acaba por constituir-se - como é comum, dizer-se - numa outra realidade.
       Assim, o fotógrafo poderá ser entendido como o alquimista que, a partir da varinha de condão da câmara, converte a imagem do objeto percecionada a olho nu numa outra imagem, após ter sido filtrada através do meio ótico.
       Mas para Mário Passos Furtado, a metamorfose ocorrida no instante do disparo parece ficar aquém das suas espectativas, como tentaremos comprová-lo na parte final desta apresentação.
       Entretanto, tratemos de fixar a atenção numa possível leitura, ainda que sintética, sobre a presente exposição, a natureza das coisas, repartida em séries, designadas pelo fotógrafo por hipóteses.

(Hipótese 1)- vermelho em mulher
       São oito rostos de mulher. De geografias e idades distintas, desprevenidamente expostos à luz do dia. De tal modo, que o fotógrafo pode dar-se à liberdade de lhe atribuir nomes. Ei-los: alegria, riso, decisão, firmeza, dúvida; perceção e frustração. Mas falta-nos um: o que tem por título: calma. O único esculpido não em carne, e sim em pedra. Mas que importância tem, se nem por isso deixa de ser um rosto?
      Apesar de diferentes rostos há, no entanto, um apontamento gráfico transversal a todos: a faixa vermelha pendendo do alto de cada retrato a preto e branco. E é aqui que nos cabe perguntar: tratar-se-á dum mero efeito plástico? Ou deverá ser interpretado como um elemento simbólico? E neste caso, o que significa?
       Eis o desafio de reflexão que pode muito bem colocar-se a cada visitante da Exposição.
(Hipótese  2) - casas curvas
             E porque não o rosto dos prédios sem a verticalidade com que foram projetados pelos arquitetos,  mas transmudados em curvas, inclinados para o chão da rua?
       Ou terão sido tomadas por alguma embriaguez? As casas ou nós? De qualquer modo, flutuam num carregado azul de mar ou de céu. Casas legendadas com belos versos soltos de Rui Belo como, entre outros, estes:
As casas de fora olham-nos pelas janelas…
Não sabem nada de casas os construtores;
As casas que eu fazia em pequeno;
… Na casa atravessei as estações…


(Hipótese 3) - Zetética      

       Titulo que se traduz no exercício de formular perguntas; de pôr em causa respostas feitas… Que  questiona o estabelecido, o dogma, seja de que natureza for.
      Reportando-se, porém, a um método, visando a investigação da razão e a natureza das coisas, talvez esta hipótese reflita o posicionamento do fotógrafo face à fotografia. O mesmo é dizer: aos propósitos, procedimentos e recursos envolvidos na construção da imagem fotográfica.

(Hipótese 4) - rua morais soares 1  e
(Hipótese 5) - rua morais soares 2

       Duas hipóteses afins que, incidindo sobre o género fotografia de rua, reúnem no seu conjunto, o mais extenso número de fotos entre as demais séries.
       E de que rua única se trata? Da morais soares: calcorreada passo a passo, minuto a minuto, tanto pela luz do dia como pela noite afora, em busca duma fração de segundo aqui, outra acolá… Não em demanda dum instante decisivo bressoniano, mas dum momento cristalizado numa captação, que posteriormente possa ser submetida à criação de uma outra imagem: a que designaremos por conclusiva!
       E o que se vislumbra não são pessoas? Estagnadas num passeio ou seguindo em frente… Mas sem nunca darem aso a qualquer diálogo de rua. Como se pudessem evitar cruzarem-se umas pelas outras! A verdade é que se mostram quase sempre sós. Como o vulto feminino que se adivinha numa superfície refletida na rua; a figura que se observa no espelho  duma loja; a que, de raspão, corre rente a uma porta envidraçada….
      Mesmo os transeuntes que figuram aos pares, tal como os manequins, por duas vezes exibidos em vitrinas luzindo pela noite, são capazes de uma palavra entre si. Cada qual tem um ponto de vista seu, e é para aí que dirige o olhar.
       A verdade é que a solidão que parece evidenciar-se nas pessoas, afinal, pode bem ser extensiva às panorâmicas de rua surpreendidas por MPF. Mesmo quando o fotógrafo congela o brilho quase feérico dos faróis das viaturas, e dos candeeiros que reluzem como estrelas, recém-chegadas dos céus!
     Na morais soares, o próprio fotógrafo há de, dum modo ou doutro, partilhar a solidão que a rua inspira!
    Mas o que percecionará o visitante desta exposição, ao passar pelas paredes emolduradas com as imagens da morais soares?

Hipótese 7 – Diferenças   
       Em contraste com o caminho até aqui trilhado, nenhum rosto há, por mais furtivo, que se dê a ver. Apenas a representação de janelas, mostradores, portas, romãs, torres… Enfim, a natureza das coisas outras, parece querer sugerir aqui o desfecho de um ciclo ou, quem sabe, a ponte transitória para outro…                                                    
2
      Como havíamos já salientado, para Mário Furtado a imagem tatuada no visor da câmara não é senão vista como uma matéria-prima passível de ser submetida a tratamento posterior, não se dispensando para esse feito as ferramentas concebidas pelos softwares.
        Então, o que desde já ocorre perguntar é o que atrairá o fotógrafo à subversão duma certa linguagem fotográfica entendida como a mais convencional?
        Porventura, a necessidade em perseguir uma linha conceptual, onde a ideia que se tem sobre a coisa prevaleça sob a forma como ela se dá a ver.
       Mas é a propósito do trabalho incindindo sobre as fotos obtidas, que talvez valha a pena evocar Eugene Smith que, sem largar mão da pós-produção, tóxica, morosa e  extenuante, não deixava de sujeitar-se a algumas observações, nem sempre muito abonatórias sobre o seu exercício. Tais como estas:
- Afinal, as fotos de Smith não são tão naturais como isso! Ora repare-se como ele alterou o olhar desta personagem!
- E já sem contarmos com o rearranjo prévio duma ou outra cena que ele procura fotografar! Não é verdade?
        E como é que Eugene Smith reagia a tais reparos? Pois então, ouça-mo-lo:
Se eu puder levá-los a pensar, fazê-los sentir, levá-los
a ver, então eu fiz tudo o que podia como professor
.

    Como se depreenderá há manipulações que poderão conferir ao objeto fotografado não apenas uma outra dimensão estética mas uma expressividade, por certo mais compatíveis com as que a fotógrafo tem em mente transmitir. E quem diz mente, poderá dizer coração!...

       Mas é ao evitar restringir o trabalho do fotógrafo MPF ao estrito âmbito do concetual, que somos ainda tentados a evidenciar uma outra particularidade, esta sugestivamente ligada a um certo pictoralismo, que não o herdado da última década do século XIX  

           E sim, a um pictoralismo radicado numa visão de contemporaneidade, imposto pela necessidade de inovação no campo fotográfico, onde se contempla não apenas as ferramentas informáticas, como as da imaginação ao serviço da criatividade.
       E aqui volta a levantar-se mais uma vez  a questão da natureza das coisas… do Fotográfico, sempre que se procura dotá-la de inesperadas representações visuais, carregadas de sentidos, significados, símbolos renovados; novas propostas formais: seja através da temperatura monocromática das imagens ou das suas cores!…
       Assim, e numa altura em que a morte da fotografia, chega a ser profetizada por uma outra reputada figura, as imagens da presente Exposição mostram-nos como está viva e se recomenda!
      Finalmente, e para desfecho desta apresentação, gostaríamos de convocar a expressão “ liberdade livre” utilizada pelo poeta António Ramos Rosa para designar o “ato poético em cisão com o real”:
       Pois tal expressão não deverá ser extensivamente aplicada à fotografia de MPF?
       E não será esse o motor pelo qual o fotógrafo se move?
      Pela nossa parte, cremos que sim!







 13/10/2018                                Renato Monteiro