sábado, 14 de dezembro de 2019

O RETRATO




I

     Mal chego ao bairro, vejo os putos a cabriolarem à minha volta. Ora,já sei, querem uma foto. Tudo bem. Já as mulheres dão a entender pouco se importarem que aponte a câmara para elas. Não será bem como digo, pois uma há que procura ocultar-se atrás de outra. Quanto aos homens é notório reagirem com desconfiança à minha presença. Para a próxima hão de demonstrar mais abertura. Mas o que me agrada ver é aquele velho sentado numa cadeira trazida da sala de jantar para o exterior da casa. Todo de preto e com um chapéu de feltro dá uma boa foto. E se me abeirasse de si? Assim, mais de perto, fica a sensação de estar a posar para o bairro inteiro, com uma expressão própria de quem faz parte duma figura emoldurada na parede duma casa antiga.


- Diga-me, posso tirar-lhe uma foto?

     A resposta é um surdo e monossilábico sim, com o abanar da cabeça. Pois basta um clique e já está! Ao mesmo tempo, os putos entregues às suas brincadeiras ignoram-me. Ainda bem! Quanto às mulheres, gesticulam e falam sem que deslinde uma única palavra. Então, trato e as fixar com a objetiva, de igual modo que os pombos da rua pousam na minha varanda da frente. Como se aquele ato fosse a coisa mais natural do mundo, e não é!

     Entretanto, o dia adianta-se e começo a pensar nas duas horas que ainda levo para voltar a casa. Já agora, ao despedir-me convém tratar todos por vizinhos e não por amigos, evitando deste modo alguma observação do género:

- Então, donde nos conhecemos?!

     Pois aqui vai uma cordial saudação, extensiva aos moradores de quem nunca vi a cara. Sei é que ainda hoje cuidarei de processar a película no improvisado laboratório instalado na cave e produzir umas tantas cópias para ofertas. E tão cedo quanto antes, que o mundo acelera mais do que eu ao volante.

II

     E olha como o velho ficou mesmo a matar na foto! Seguramente que vai gostar de se rever nela. Afinal, mostra-se na imagem como na vida: sem mexer uma ruga nem pestanejar! Quanto aos putos, o trabalho que me deu a selecionar as melhores imagens. E há aqui alguns retratos das mulheres que hão de merecer o devido apreço.  Sem dúvida! O que estranho, é tão repentinamente chamarem os putos quando me viram a aproximar! Que lobo anda por aqui à solta que eu não vislumbre? E que razão há para pregarem os olhos ao chão? Ora, algo se passa, mas o quê? Porém, seja o que for, não abandono um dos propósitos que me fez vir, de novo, ao bairro: a distribuição das fotos pelas pessoas. E é nesse preciso instante que a mulher da blusa às flores cor-de-rosa sobre fundo azul escuro se faz ouvir entre as demais:

- Veem como o homem nada tem que se lhe aponte?

     O quê?! Com que então houve quem me tomasse por um agente à paisana, pertencendo ao corpo de intervenção policial que acabaria por efetuar uma musculada operação no bairro?! Posso lá crer!

- E não é que, em chegados ao pé de nós, levaram tudo à frente! Nem as portas das casas pouparam, deixando as crianças num grande berreiro. Só visto!

     Apenas faltava esclarecer a ausência do patriarca que uma semana antes encontrara sentado na cadeira da sala de jantar trazida para o exterior.

- Será que estaria a dormir a sesta?

- Sim, desde há três dias. E para sempre, ó vizinho.

     Agora esse retrato - interpõe a mulher da blusa florida - havia de ficar bem era na sua campa!


Estás Branco!





Não houve uma única pessoa que, ao passar


por mim, deixasse de exclamar:


" Estás branco!"

Nunca me senti tão caucasiano!

domingo, 6 de outubro de 2019

Com Mário Viegas no Rossio durante a manifestação por Timor








                                                   Dorme com o cigarro aceso
Entre os dedos sem anéis
Até que o lençol arda
Em vogais de fumo

 E o vizinho do andar de cima
Ao respirar a tua nicotina
Acorde, desça e abra
A porta do teu sono

                                           




sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

9 de Dezembro (2014)


  

   
       É a 9 de dezembro de 2014 que faço anos. Mas o meu vizinho, sem ver a diferença que uma data pode significar na idade de um homem, limitou-se à saudação do costume:

                      - Boa tarde e até amanhã se deus quiser”
     
     Como se o dia fosse radiante,  o futuro certo e eu acreditasse na providência!

                     - Adeus, sr. costa!
      
     Retribuí eu, enquanto avesso a simpatias de vão de escada logo me pus, de degrau em degrau, a dar os parabéns a mim mesmo.

    Como se a cada passo, outra pessoa houvesse a cruzar-se comigo e a festejar o meu aniversário...

       E bem grande foi o  cansaço até chegar às  águas furtadas para logo me recostar no velho sofá. Por sinal ainda mais gasto do que eu!

                                                                                                                                    2014

Tal como Afonso Duarte (2013)

E é no 28 que  chego à graça por ter tudo que eu quero
a leitura à borla das manchetes expostas no quiosque
o bilhete de lotaria para jogar à minha sorte
a cremosa bola de berlim  que me traz à lembrança o makarek
do mário henrique leiria a entrar numa pastelaria
o botequim da açoriana natália já sem a natália
a pedir-me o isqueiro para lhe acender a boquilha
a tasca do joão minhoto onde lasco o melhor bacalhau da noruega
e um rés do chão onde bebo uns copos pela noite adentro enquanto ouço
o júlio vadio a gemer um fado mais vadio do que ele
e me encontro com aquela rapariga cujo nome não recordo
a que queria publicar-me um livro de versos com rimas brancas
e pouco mais do que sofríveis antes de ter o primeiro filho
ou a luísa que me arranca o coração sem nunca ficar com ele
quando o meu coração até poderia servir para alguma coisa.


e é na graça que eu tenho o maior número de encontros ocasionais
com o arrumador de carros que é galego e por me ver
sempe a penates nunca me leva um  chavo 
o taxista reformado sentado no banco do jardim
como se ainda andasse a conduzir por lisboa ao volante
o carteirista anafado e pulha que cospe no passeio
e se faz passar por turista com uma câmara digital a tiracolo
sem esquecer o meu mais especial encontro comigo mesmo
a remoer uma ideia qualquer que não leva a algum lado 
onde já não tenha estado e depois uma emoção quase sempre dispensável
por ter deparado com um pombo de rua incapaz de voar
ou sem ter visto pombo algum não deixar de o imaginar
ideias mais emoções iguais às quinquilharias de uma loja em trespasse.


mas é o bairro da graça a aldeia mais portuguesa
que há em todas as colinas de lisboa em que se embarca
só de olhar para o tejo a partir do miradouro da senhora do monte
ponto onde gostaria  ser feliz acaso alguma vez a vida previsse
alguém ser isso fosse de que terra fosse
e é a graça o lugar já o disse que tem tudo o que eu quero
ou a faltar-me alguma coisa seria muito pouco
talvez um coreto com uma banda sempre a tocar
e  o bafo quente da vaca que dava leite
não me lembro bem em que esquina e ainda o amigo
que foi à minha frente uma semana depois de ter comparado
as suas análises clínicas mais promissoras que as minhas
por fim  a namorada primeira que por sinal nunca conheceu a graça
nem  foi o meu maior amor salvo quando a cortejava

mas isso são memórias e eu dou-me melhor
com o presente e o dia seguinte tal como  afonso duarte
que dizia sobre o passado ser sempre um resto, 
ou, pior, uma falta de saúde, e depois não é na Graça
que se envelhece mais devagar e menos se morre?

(2013)