sábado, 21 de outubro de 2017

Flashes



Flashes no Cais das Colunas: a louca que interrompe bruscamente o seu andar sem tino para morder, com raiva, um grande pepino tirado da carteira sebenta; o “ musga “, desdentado, aspirando cheio de fé um charro; uns quantos homens dobrados pela cintura, catando na lama minhocas uma a uma.

Os sem abrigo e sem nome, espalmados nas pedras soalheiras como animais de sangue frio; os três ciganos a impingirem anéis, cordões, relógios, pistolas de alarme e a ilusão da erva ser marroquina.

A repentina invasão de pequenos e rápidos japoneses saídos de um auto - pullman, com a câmara em punho. Dois ou três disparos cegos, e já está: contra o cristo rei e a ponte, que ainda é cedo para o pôr do sol. Depois, sucederá a corrida para o veículo que os trouxe, como se fossem ameaçados por um tarzan carteirista.

Daqui a pouco hão de voltar a fazer fogo para os mesmos alvos. Mas desta vez entrincheirados nas muralhas do castelo de s. Jorge.

Quanto aos quatro jovens engravatados, impingindo deus aos incautos transeuntes, por que não os leva satanás pelo mar fora?


                                                                                                                            Lisboa,  1996




Redes Assassinas



Estendem-se no chão como lençóis ao sol, a poucos passos de rústicos ancoradouros onde atracam as embarcações, quando não mesmo em terreno aberto, ainda dentro do perímetro de uma ou outra aldeia à borda de água.

São as redes mosqueteiras que muito têm contribuído para a diminuição populacional das enguias adultas, estimulando na sua falta a oferta dos aquaristas...

Lamentável é que a tão evidente exposição das redes, conhecidas por assassinas entre os populares, não acabe por mobilizar as autoridades a agir sobre quem logra obter chorudos rendimentos, ao utilizá-las na proibitiva captura do meixão: a migradora enguia bebé, nascida no Mar dos Sargaços.

Mas por que razão não se arranca de vez a faixa que venda os olhos da justiça? E ainda: a espada e a balança ?
                                         
                                                                                                                 Lisboa, 2015

1 comentário:
Ainda a campanha não arrancou já o meu iluminado camarada se coloca na pole position para ministro da agricultura e pescas e quiçá acumulando com o ministério da justiça. Cuidado, olhe que o amigo Costa anda por aí coaptando a rara gente que fala alto e não têm medo do coelho da páscoa!
Pudesse o meixão votar e era garantido!!!    


Bela, a florista




                                                                             À memória de Raúl Brandão.


Enquanto um grita e outro geme, os demais soluçam e sussurram, intentando mesmo alguns soerguer a cabeça ou estender tremulamente uma mão como quem esmola. Na verdade, raros são os que se mantêm anestesiados para todo o sempre, sem reclamarem a coroa, a palma, o mais singelo ramo encomendado na véspera.

E é aí que Bela, a florista, acorda sobressaltada a meio da noite e, com o coração a sair-lhe do peito, logo desce à cave da loja para confirmar se os arranjos estão lá, confecionados de acordo com as indicações dadas pelos clientes: as rosas dobradas e brancas, os lírios roxos, as giribérias, os antúrios, os crisântemos...

Porém, as piores noites acontecem quando, de regresso à cama, as súplicas não deixam de se ouvir até ao raiar da manhã. É de enlouquecer!

                                                                       Lisboa, 26 de março, 2015

O Filme



                                                                 à Marga

De repente, gritava-se : “está na hora!”, sempre que o filme tardava em arrancar ou já iniciado perdia de súbito o pio. Então, clamava-se em uníssono: “olha o sonoro, olha o sonoro!”, enquanto o teto parecia desabar a todo o momento, com o estrondoso sapateado que se alastrava por toda a sala.

Mesmo os começados à hora prevista demoravam demais,  tal a ansiedade de ver as primeiras imagens exibidas no ecrã. E redundantes eram aqueles dois ou três segundos ocupados com o título, que todos sabiam ao que iam!

Sequer eram reprimidos uns estridentes assobios quando, na altura da projeção, os fusíveis pifavam ou a película dava o berro, rompendo-se por motivos óbvios: a cena do beijo ser demasiado escaldante, o tiro não atingir o artista principal por uma unha negra, qualquer outra imagem envolvendo um maior suspense...

Sob o efeito da atmosfera inerente ao filme - aquilo era mais do que a sério - gerava-se então um atropelar de emoções exteriorizadas em incontidos óis, uis e ais exclamativos associados a instantâneos e elétricos saltos na cadeira, esgares e esperneares; suores, tremores, tudo nervos...

Naqueles recuados tempos, pouco mais éramos do que umas incautas marionetas acionadas por caprichosos e intocáveis deuses da sétima arte!

Hoje, quando me recosto no cinema desnervado do meu Bairro e ao som ruminante das pipocas, nem sempre fixo os olhos na tela, antes escolhendo seguir o filme que se revela na câmara escura do meu ser:

a três dimensões e a cores, a que não falta um fundo musical, sem legendas, onde contracenam apenas dois atores: tu e eu!


                                                                              Lisboa, 26 de abril, 2015