segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

AUGUSTO CABRITA (2010)


          
 
    Eis algumas palavras de Dinis Machado sobre um fotógrafo, natural do Barreiro, que alguns pescadores mais velhos ainda recordam:
       “Talvez se possa definir o Augusto Cabrita (…) como um ser humano onde se combinam, com uma felicidade extremamente rara, a truculência, a generosidade e a arte do trabalho. Absorve a vida como se lhe fosse pouca – e depois distribui-a, caminheiro, pelas mãos dos outros. 
        (…) Num dia em que trocámos citações  (como às vezes fazemos) ao ouvi-lo falar, no limiar da sensibilidade, do burlesco geométrico de Chaplin, disse-lhe que ele teve um destino à Le Corbusier:
Estás condenado a ver
(…) para que a ideia seja mais esclarecedora: a sentir, a compreender e a revelar. "
                                                                                                                        Barreiro, fevereiro, 2010

O SALINEIRO (2012)

      


      Sonha com a hulha negra, de quando a ia buscar ao fundo do porão para a trazer aos  ombros;  dos  sessenta verões à espera da flor do sal para a carregar numa fragata; e das  lides do campo, à batata e à cebola.
     Mas também sonha  com as marchas e continências da tropa; o grande burburinho causado pelas greves nos severos tempos do Carmona; as noites  vividas  no frio mês de Dezembro num alambique do Montijo.
     Tudo o que sonha é sempre a preto e branco, tão mudo como um filme antigo.  À exceção de uma certa varina, que continua a ouvi-la cantar os seus pregões. E dizer que chega mesmo a vê-la correr  com as chinelas dentro da canastra para, assim descalça, mais facilmente poder fugir de quem a sonha!